Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Claudia Sheinbaum concordaram, em conversa telefônica nesta segunda-feira (9), em realizar um evento empresarial entre Brasil e México em junho ou julho de 2026. A iniciativa, sugerida por Lula, visa explorar novas oportunidades de negócios e aprofundar a parceria bilateral — especialmente no setor de energia, onde a mexicana solicitou cooperação brasileira para produção de etanol.
Em 2024, a corrente de comércio bilateral ultrapassou US$ 13,6 bilhões, consolidando o México como o 6º principal parceiro comercial do Brasil. Mas os números revelam mais do que volume: indicam uma reconfiguração estratégica de décadas, marcada por crescimento sustentado das exportações brasileiras, atração de investimentos mexicanos e um esforço diplomático para atualizar marcos regulatórios defasados.
Crescimento histórico: de US$ 3,6 bi a US$ 8,6 bi em uma década
A evolução do comércio Brasil-México nas últimas décadas desenha uma trajetória de expansão consistente. Entre 2013 e 2023, as exportações brasileiras para o México cresceram 140%, saltando de US$ 3,6 bilhões para US$ 8,6 bilhões — recorde histórico. Esse movimento elevou o país ao posto de 5º maior destino dos produtos brasileiros e 6º parceiro comercial global do Brasil.
Em 2024, o Brasil registrou seu primeiro superávit comercial com o México em 20 anos, impulsionado pela força do agronegócio. Até agosto daquele ano, o saldo positivo já alcançava US$ 1,4 bilhão, caminhando para o quarto ano consecutivo de resultado favorável. Paralelamente, o México anunciou, desde 2023, cerca de US$ 7,9 bilhões em investimentos no Brasil — valor superior ao total aplicado em toda a década anterior (2012-2022).
Pauta comercial: agronegócio e automotivo em equilíbrio estratégico
A composição do comércio bilateral reflete a complementaridade das duas economias. Do lado brasileiro, destacam-se:
- Agronegócio: carnes bovina, de frango e suína, soja, café e produtos florestais. O México tornou-se, em 2025, o 2º maior destino da carne bovina brasileira, com crescimento de 250% nas compras no primeiro semestre de 2024.
- Manufaturados: veículos automotores (cerca de US$ 715 milhões) e autopeças.
Do lado mexicano, as importações brasileiras concentram-se no setor automotivo: peças, acessórios, veículos de passageiros e de carga. Ou seja: o Brasil tanto vende quanto compra carros do México — um sinal de integração produtiva regional.
Marco legal: ACE-53, renegociação e novas tarifas
O principal instrumento regulatório do comércio bilateral é o Acordo de Complementação Econômica nº 53 (ACE-53), assinado em 2002, que concede preferências tarifárias para cerca de 800 itens. Há também o ACE-55, voltado especificamente ao setor automotivo.
Contudo, ambos os acordos estão defasados frente à complexidade das cadeias produtivas atuais. Por isso, diplomatas de Brasília e Cidade do México trabalham para ampliar a cobertura setorial e reduzir barreiras remanescentes. O desafio ganhou urgência em 2026: o México aprovou aumento tarifário entre 20% e 50% para países sem acordos comerciais amplos — medida que inclui o Brasil e entrou em vigor em 1º de janeiro de 2026. A decisão, interpretada como reação a pressões externas, busca proteger a indústria mexicana, mas exige resposta coordenada para não comprometer fluxos consolidados.
Diplomacia presidencial: de 190 anos de relações a nova era de cooperação
Em 2024, Brasil e México celebraram 190 anos de relações diplomáticas. O marco simbólico foi acompanhado por gestos concretos: a posse de Claudia Sheinbaum, em outubro, contou com a presença de Lula, que levou uma agenda focada em agro, indústria e biocombustíveis.
Em janeiro de 2026, os dois líderes já haviam conversado sobre a crise na Venezuela e as relações com os Estados Unidos sob a gestão de Donald Trump. Na ocasião, rejeitaram uma visão “ultrapassada do mundo em zonas de influência” e reiteraram a defesa do multilateralismo, do direito internacional e do livre-comércio.
A conversa de março de 2026 dá continuidade a esse alinhamento, com foco em energia e cooperação técnica. Sheinbaum solicitou apoio brasileiro para implementação de programas sociais de combate à fome e à pobreza — área em que o Brasil acumula experiência reconhecida internacionalmente.
Encontro Empresarial: ponte direta entre setores privados
Em agosto de 2025, a Cidade do México sediou o Encontro Empresarial Brasil-México, liderado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e organizado pela ApexBrasil, Itamaraty e MDIC. Cerca de 400 empresários participaram de painéis sobre biocombustíveis, energia, saúde, segurança alimentar, tecnologia e inovação.
O evento resultou na assinatura de dois Memorandos de Entendimento (MoU):
- Cooperação em promoção de investimentos e comércio exterior: prevê missões comerciais, feiras internacionais, intercâmbio de informações e apoio a micro, pequenas e médias empresas, com ênfase em empreendimentos liderados por mulheres.
- Cooperação no agronegócio: abrange produção sustentável, assistência técnica a pequenos produtores, sanidade animal e vegetal, pesquisa, inovação, rastreabilidade e instrumentos de financiamento agrícola.
“Queremos aumentar o comércio, ampliar mercados, avançar na ciência, na agricultura, na indústria, na segurança alimentar”, afirmou Alckmin. Para o secretário de Economia do México, Marcelo Casaubon, “a vontade política dos dois países de levar a relação bilateral a outro plano ficou evidente”.
Desafios e perspectivas: além do volume, rumo à integração
Apesar dos avanços, persistem obstáculos. A renegociação do ACE-53 e do ACE-55 exige equilíbrio delicado: ampliar preferências sem comprometer setores sensíveis em nenhum dos países. A nova tarifa mexicana de 2026 adiciona complexidade ao cenário, exigindo diálogo técnico ágil para evitar rupturas.
Além disso, a integração produtiva ainda é incipiente. Enquanto o comércio de commodities e veículos avança, há espaço para ampliar cooperação em tecnologia, serviços, economia criativa e transição energética — áreas onde Brasil e México possuem capacidades complementares.
O evento empresarial previsto para junho/julho de 2026 pode ser um catalisador nesse sentido. Se bem articulado, tem potencial para transformar o crescimento quantitativo do comércio em ganhos qualitativos: cadeias de valor regionais, transferência de tecnologia e padrões comuns de sustentabilidade.
Duas potências, um projeto regional
Brasil e México não são apenas os maiores países da América Latina em população e economia. São também os que possuem maior capacidade de liderar um projeto de desenvolvimento regional autônomo, baseado em cooperação, diversificação e soberania produtiva.
O recorde comercial de US$ 13,6 bilhões em 2024 é um ponto de partida, não de chegada. O desafio agora é

