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José Mojica completa 90 anos: o legado de Zé do Caixão e os temores que assombram o Brasil

Recife CotidianoRecife Cotidianomarço 19, 2026 684 Minutes read0

Há monstros que vêm de castelos europeus, outros saem de laboratórios futuristas. Mas um deles nasceu num cemitério poeirento do interior imaginário do Brasil.

Nesta sexta-feira, 13, celebramos com o sinal da cruz os 90 anos de nascimento, em São Paulo, de José Mojica Marins. Três décadas depois, ele criaria um personagem que pisaria fundo no imaginário nacional: o coveiro de cartola e unhas intermináveis conhecido como Zé do Caixão.

Mais do que assustar plateias, Mojica inventou um horror profundamente brasileiro — um terror que não vinha apenas do sobrenatural, mas da própria estrutura da sociedade. Ele traduz medos políticos profundamente enraizados na história brasileira: autoritarismo, violência social, desigualdade extrema e a fragilidade das instituições.

Nos seus filmes, o medo tinha cheiro de terra molhada, eco de igreja vazia e silêncio de autoridade ausente. Sua plateia reconhece as ruas de terra, os botecos fedendo a cachaça, os velórios comunitários e as pequenas cidades dominadas por boatos e superstições, originadas de seus sincretismo religioso.

O cineasta paulista revolucionou a sétima arte ao unir filosofia e medo, criando um ícone cultural que enfrentou a censura e marcou gerações com criatividade ímpar. Resta-nos celebrar a permanência de um imaginário que provou ser possível fazer terror com sotaque, filosofia e identidade nacional.

O tirano da pequena cidade

Quando apareceu pela primeira vez em À Meia-Noite Levarei Sua Alma, em 1964, Zé do Caixão não era exatamente um monstro.

Era algo talvez mais familiar ao Brasil: um homem que governava pelo medo.

Ele intimidava moradores, humilhava a religião local e fazia valer sua vontade pela força. A comunidade o temia, mas ninguém parecia capaz de detê-lo.

Essa figura lembrava um personagem recorrente da história brasileira: o mandão local, o coronel informal, o poder que se impõe sem prestar contas a ninguém.

O terror, ali, não era apenas o que Zé fazia — era a impotência coletiva diante dele.

Horror em tempos de autoritarismo

Não foi por acaso que o personagem ganhou forma no mesmo ano do Golpe de Estado no Brasil em 1964. Mojica entendia que o verdadeiro horror não está no sangue derramado, mas na atmosfera, na sugestão, no que não se vê mas se sente.

Embora Mojica nunca tenha feito cinema político no sentido tradicional, o clima de medo e arbitrariedade da época parecia infiltrar-se em suas histórias. Seus filmes frequentemente mostram personagens reduzidos a objetos de tortura ou experimentação.

Em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, de 1967, os delírios infernais, as torturas e as punições grotescas lembram um país em que o poder podia ser exercido sem limites claros.

Em um país acostumado a importar monstros estrangeiros, Zé do Caixão provou que também era possível criar nossos próprios pesadelos. E nos pesadelos de Mojica, o horror não era apenas metafísico — era também social.

O terror não vem de monstros sobrenaturais, mas de medos cotidianos e locais — morte, maldição, loucura, violência doméstica, vingança. Os filmes de Mojica frequentemente mostram uma sociedade brutalizada por assassinatos cruéis, estupros, torturas psicológicas, justiça privada.

O medo da violência e da impunidade

O que torna a obra de Mojica ainda mais impressionante é o contexto de sua produção. Em um país onde o cinema muitas vezes luta por recursos, ele fazia milagres com orçamentos ínfimos. A criatividade suplanta a falta de dinheiro: efeitos práticos feitos com engenhoca caseira, cenários construídos com sucata e uma atmosfera densa que dispensava grandes produções.

Improvisava cenários e frequentemente enfrentava censura ou incompreensão. Ainda assim, insistia em transformar suas ideias em imagens. Enquanto parte da crítica torcia o nariz, o público reagia com fascínio e medo. As sessões de cinema viravam rituais coletivos — entre sustos, risadas nervosas e olhares espantados.

Nos filmes de Mojica, a violência aparece crua, direta, quase cotidiana. Assassinatos, perseguições e humilhações acontecem diante de uma comunidade paralisada.

Essa atmosfera revela um dos terrores políticos mais persistentes do Brasil: a sensação de que a lei nem sempre alcança quem exerce poder. Talvez o elemento mais brasileiro do terror político em Mojica seja a sensação persistente de impunidade.

Zé do Caixão avança como se fosse intocável. E por muito tempo parece ser mesmo.

Nesse sentido, o personagem se torna quase uma metáfora grotesca de uma sociedade em que o abuso muitas vezes encontra poucos limites.

Uma capa sombria sobre o país

O que torna a obra de José Mojica Marins tão singular é que seus filmes nunca dependeram de castelos góticos ou monstros estrangeiros.

Seu horror nasce de coisas reconhecíveis para qualquer brasileiro: pequenas comunidades dominadas pelo medo; religiosidade confrontada pela descrença; violência que substitui a justiça; e autoridade exercida sem controle.

Por trás da cartola e das unhas afiadas de Zé do Caixão, esconde-se algo mais perturbador que um demônio.

Esconde-se a caricatura de um poder sem limites — um espelho sombrio das ansiedades políticas de um país que, muitas vezes, também parece caminhar entre sombras. Mojica nos deixou em 19 de fevereiro, pouco dias antes da pandemia de covid-19 aterrorizar o país.

Tags
autoritarismocinemaculturaDitadura MilitarJosé Mojica Marinsterror brasileiroZé do Caixão

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