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“O mistério da perna cabeluda persiste nas ruas”

Recife CotidianoRecife Cotidianomarço 19, 2026 1202 Minutes read0

Assisti ao filme O Agente Secreto, que concorre, neste domingo (15), a quatro categorias do Oscar 2026, entre elas, melhor filme e melhor ator, e passei dias voltando mentalmente a algumas cenas. Algumas imagens parecem continuar acontecendo dentro da gente, como se só se completassem no nosso imaginário. Não sou crítica de cinema, mas me arrisco a comentar alguns pontos que mais me fizeram refletir. Me acompanhem!

A primeira cena já causa impacto: um cadáver abandonado num posto de gasolina, no meio da estrada. A imagem quase lembra um filme de terror. Mas ali o filme parece anunciar um de seus temas centrais: a banalização da morte. Ao longo da narrativa, ela reaparece cercada por uma estranha normalidade. É difícil não fazer um paralelo com contextos de regimes autoritários. Quanto mais autoritário é um sistema político, mais a vida humana é relativizada.

A beleza estética do filme também chama atenção. Fui transportada para um Pernambuco vivo e culturalmente pulsante dos anos 1970. O carnaval aparece como expressão de vitalidade e resistência popular. Há algo político nessa insistência em celebrar a vida, ocupar as ruas e produzir cultura quando tudo ao redor parece querer impor medo e silêncio.

Outro elemento que intriga o espectador é a famosa perna cabeluda. Ela surge primeiro como mistério e nos faz lembrar das lendas urbanas pernambucanas. Mas, ao longo do filme, fica difícil não enxergar ali também uma metáfora. A perna cabeluda aparece como presença difusa, associada ao medo, algo que circula, invade espaços e ninguém consegue explicar completamente. Em algum momento, deixa de ser apenas uma lenda e passa a representar o clima de tensão que atravessava o país naquele período.

No centro da história está Armando, que passa a usar o nome Marcelo, interpretado por Wagner Moura, que concorre ao prêmio de melhor ator no Oscar. Professor universitário, defensor da pesquisa e da produção de conhecimento no Brasil, dentro de uma universidade nordestina. Um personagem que representa algo profundamente incômodo para regimes autoritários: o pensamento crítico. Não por acaso, é rotulado de comunista, como tantos outros que ousaram defender a liberdade intelectual e autonomia universitária. A perseguição que sofre revela algo que regimes autoritários sempre souberam: ideias também podem ser perigosas.

A própria forma como o filme é contado reforça esse ambiente de incerteza. A narrativa é fragmentada, quase como um quebra-cabeça, sendo montado diante do espectador. Aos poucos, tentamos reconstruir o que aconteceu. Essa escolha parece dialogar com o contexto retratado: sistemas autoritários não apenas reprimem, mas também tentam interromper histórias, apagar rastros e transformar acontecimentos em boatos ou lendas.

Talvez seja por isso que a perna cabeluda faça tanto sentido na trama. Ela simboliza o lugar onde a verdade se mistura com o medo e o imaginário popular. Porque, no fim das contas, O Agente Secreto não fala apenas de um Brasil dos anos 1970. Ele nos lembra que regimes autoritários não sobrevivem apenas da violência explícita, mas da naturalização dela. Quando a morte se torna banal, a vida passa a valer menos.

E é justamente nesse momento que a resistência, às vezes silenciosa, às vezes festiva, às vezes criativa, se torna indispensável.

O post A perna cabeluda ainda anda por aí apareceu primeiro em Vermelho.

Tags
cinema brasileiro contemporâneoculturaditadura militar no cinema brasileiroKleber Mendonça Filho diretormemória da ditadura no BrasilO Agente Secreto filmeWagner Moura Oscar 2026

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