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Iniciativa sobre terras raras em Poços de Caldas (MG) levanta preocupações sobre soberania e impactos ambientais

Recife CotidianoRecife Cotidianomaio 14, 2026 704 Minutes read0

 No mês de março de 2026, a mineradora Meteoric Resources, da Austrália, formalizou seu pedido de Licença de Instalação para o Projeto Caldeira, um investimento que soma R$ 2,2 bilhões em exploração de terras raras. Entretanto, os residentes de Caldas e Poços de Caldas enxergam este projeto como uma continuidade do extrativismo tradicional no Brasil. Em vez de promover desenvolvimento, o empreendimento apresenta riscos à agricultura local, ao turismo, à saúde pública e à soberania nacional. As preocupações surgem principalmente de pessoas que conhecem os perigos de um modelo econômico centrado na exportação de matérias-primas com baixo valor agregado.

Andressa Schpallir, líder do PCdoB em Poços de Caldas e membro do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Codema), critica a abordagem adotada para a exploração mineral sem a implementação de um setor industrial correspondente. “Minas Gerais não pode se limitar a exportar minérios para países como os EUA, assim como já ocorre com o minério de ferro. É essencial estabelecer uma cadeia industrial avançada que opere em todos os níveis das terras raras”, declara Schpallir. Ela ressalta a necessidade de um controle estatal mais rigoroso e limites à participação estrangeira na indústria, criticando o PL 2.780/2024 por não resguardar os interesses nacionais. Para ela, o projeto atual transforma a região em uma “zona sacrificada”, onde os lucros são transferidos para fora e os riscos permanecem locais.

Preocupações ambientais e proximidade com atividade nuclear

A localização do projeto é uma das maiores preocupações levantadas pela comunidade. As cavas planejadas ficam a menos de um quilômetro da Unidade de Descomissionamento de Caldas (INB), que armazena mais de 20 mil toneladas de rejeitos radioativos. Schpallir demanda uma avaliação detalhada dos impactos sobre a saúde da população, citando casos anteriores em que depósitos próximos a áreas urbanas geraram problemas respiratórios e poluição sonora. O físico Daniel Tygel, presidente da Aliança em Prol da APA da Pedra Branca, reforça essa preocupação ao destacar que o processo químico com ácido sulfúrico afetará anualmente cerca de 5 milhões de toneladas de argila. “Todo o procedimento aqui é químico. Essa quantidade significativa altera as propriedades da argila e eleva sua acidez”, explica Tygel.

Pressão da mineradora para iniciar operações

A Meteoric Resources defende que seu Projeto Caldeira é uma das iniciativas mais sustentáveis no setor de terras raras fora da China. A empresa australiana afirma que sua técnica de extração em argila iônica não requer explosivos ou barragens para rejeitos; utiliza lixiviação com sulfato de amônio — um composto considerado seguro e similar a fertilizantes — seguido pelo empilhamento seco e reintegração das argilas às cavas para reabilitação progressiva. A mineradora assegura que aproximadamente 96% da água será reciclada, mantendo baixo consumo energético e utilizando energia renovável fornecida pela CEMIG. Além disso, apresentou um extenso estudo sobre o impacto ambiental com mais de 3 mil páginas, envolveu-se em audiências públicas e respondeu tecnicamente ao Ministério Público Federal sobre sua proximidade com a INB. Segundo a empresa, esse investimento deve gerar empregos e royalties e contribuirá para agregar valor aos minerais críticos no Brasil, prevendo ainda planos futuros para refino local.

Leia mais: Minerais críticos colocam o Brasil no centro da disputa global

Riscos associados à técnica empregada

Tygel também se posiciona contra o argumento corporativo que sugere que a amônia usada no processo seria benéfica como fertilizante após a extração. Ele considera essa informação enganosa, pois a amônia é altamente tóxica e as argilas devolvidas às cavas carecem de matéria orgânica necessária para absorver esse nutriente. “O que farão para tentar mitigar essa situação é compactar as argilas até formar uma laje imensa, resultando na desertificação do local”, alerta o físico. Ele acrescenta que existe ainda o risco da drenagem ácida nas minas, capaz de liberar metais pesados e radionuclídeos nas águas locais, impactando bacias que abastecem cidades como Ribeirão Preto e Barretos.

Consequências econômicas para a região

Além dos potenciais danos ecológicos, Tygel destaca que o projeto ameaça comprometer as atividades econômicas tradicionais da cidade. Na visão do ex-vereador, essa forma predatória de mineração pode prejudicar setores como agricultura, vitivinicultura e turismo hidrotermal. “A proposta apresentada é inadequada e não necessariamente traz desenvolvimento real. Existe o risco iminente de sufocar outras atividades econômicas do município; quando esse ciclo mineral acabar, poderemos nos encontrar sem uma economia própria ou resiliente”, argumenta ele. Tygel menciona experiências passadas em outras localidades mineradoras onde houve aumento da violência e colapso nos serviços públicos na área da saúde.

A comunidade exige a suspensão imediata do processo de licenciamento até que sejam realizados estudos independentes adequados. Entre as sugestões feitas pelos moradores — frequentemente ignoradas pelas autoridades locais — estão restrições ao uso das estradas municipais devido ao tráfego intenso gerado por caminhões e a criação de uma zona buffer mínima de três quilômetros ao redor da INB para assegurar segurança nuclear. Para Tygel, este momento representa uma perda significativa: uma riqueza estratégica que poderia alavancar o desenvolvimento nacional está sendo explorada sob condições que ameaçam tanto o futuro regional quanto a segurança hídrica em partes do Sudeste brasileiro.

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