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Evo destaca preocupações com a nova abordagem de segurança dos EUA na América Latina

Recife CotidianoRecife Cotidianojunho 11, 2026 85 Minutes read0

Nesta quarta-feira (10), o ex-presidente boliviano Evo Morales participou de uma reunião virtual com membros da União da Juventude Socialista (UJS) e líderes do PCdoB, em um evento repleto de tensões geopolíticas e solidariedade entre classes. O diálogo não se limitou às questões internas da Bolívia, mas se expandiu para discutir os desafios enfrentados pela esquerda latino-americana diante do crescimento da extrema direita e das pressões exercidas pelos Estados Unidos na região.

Um dos principais temas abordados por Evo Morales foi a importância de compreender a crise na Bolívia como parte de um fenômeno mais amplo. Ele argumentou que os problemas enfrentados pelo país andino são reflexos de uma ofensiva contra governos e movimentos sociais em toda a América Latina.

Além de relatar a atual situação no país, as palavras de Morales serviram como um alerta sobre a nova configuração da doutrina de segurança dos Estados Unidos na América Latina, onde a luta anticomunista foi substituída pela chamada “guerra ao narcoterrorismo”, utilizada como justificativa para o controle dos recursos naturais da região.

A herança indígena e a luta pela soberania

O ex-presidente dedicou uma parte considerável de sua fala à trajetória de resistência indígena na Bolívia, estabelecendo uma relação entre o cerco colonial histórico e o atual contexto imperialista. Ao recordar figuras históricas como Túpac Katari e Bartolina Sisa, ele buscou posicionar o movimento popular boliviano como continuador de séculos de luta contra a opressão colonial e as desigualdades sociais.

Morales ressaltou que a ascensão dos movimentos indígenas ao poder possibilitou uma combinação de organização sindical com participação política e defesa da autonomia econômica. Ele fez referência ao seu governo como um marco na história boliviana, onde a dignidade indígena resultou em soberania econômica.

Ele também mencionou ações implementadas durante sua administração, como a nacionalização de recursos estratégicos e o fechamento das bases militares norte-americanas no território boliviano. A mensagem dirigida aos jovens enfatizou que as mudanças estruturais demandam não apenas mobilização social, mas também a conquista do poder político.

“Nacionalizamos os hidrocarbonetos. Dizemos: se querem ser sócios, que sejam sócios, mas não patrões”, recordou Morales, ao evidenciar a mudança na lógica de exploração que fez com que o PIB boliviano saltasse de US$ 9 bilhões em 2005 para mais de US$ 42 bilhões em 2019. Para ele, o atual colapso econômico, caracterizado pela escassez de combustíveis e insumos, não é mera coincidência, mas sim uma consequência deliberada do retorno ao neoliberalismo e da entrega do lítio e das terras raras aos interesses estrangeiros.

Criticas ao “novo Plano Condor”

No decorrer do debate, Morales fez uma análise contundente sobre as formas contemporâneas de perseguição política na América Latina.

O ex-presidente afirmou que o antigo Plano Condor das ditaduras militares foi substituído por mecanismos institucionais que perseguem judicialmente opositores políticos. De acordo com ele, juízes, procuradores e tribunais agora desempenham papéis semelhantes aos aparelhos repressivos utilizados pelas ditaduras no passado.

Ele também denunciou os processos judiciais instaurados contra si após o golpe em 2019, classificando-os como manobras para obstruir sua participação política e debilitar o movimento popular boliviano.

O lítio, o “Escudo” e a reinterpretação da narrativa

<pUm dos momentos mais marcantes da análise feita por Morales foi a desconstrução da narrativa sobre "narcoterrorismo" promovida por Washington e apoiada pelo governo Rodrigo Paz. Evo reverteu essa acusação afirmando: “Não existe narcoterrorismo aqui. O verdadeiro narcoterrorismo é estatal”. Ele citou exemplos de corrupção envolvendo a elite governamental atual, como o transporte ilegal de cocaína disfarçado sob madeira e maconha em aeronaves da Força Aérea Boliviana para evidenciar que rotular opositores como "terroristas" serve como uma ferramenta de guerra híbrida destinada a criminalizar protestos sociais e justificar intervenções externas.

Morales também alertou sobre a existência do “Escudo das Américas”, um novo pacto político-militar que visa propagar medidas contra o crime organizado sob pretextos falaciosos enquanto impede a integração regional e protege os monopólios sobre o lítio. “Agora não se trata só do combate ao comunismo; tornamo-nos narcoterroristas para eles”, ironizou ele, esclarecendo que a Doutrina Monroe permanece vigente, sendo executada não apenas por generais, mas também por magistrados, promotores e operações financeiras secretas.

A mobilização juvenil e o internacionalismo

A juventude brasileira expressou total apoio à causa boliviana durante este encontro. Ana Prestes, secretária de Relações Internacionais do PCdoB, junto com Rafaela Elisário da diretoria da UJS, reafirmaram que as lutas na Bolívia estão interligadas à batalha contra a extrema-direita no Brasil.

Durante o evento, Morales recebeu manifestações solidárias relacionadas à situação política boliviana e às mobilizações populares contra Rodrigo Paz. Os organizadores ressaltaram sua trajetória como um ícone na luta pelos direitos dos povos originários e pela soberania nacional.

O ex-presidente enfatizou ainda a urgência na formação política das novas gerações e na organização popular para enfrentar as forças conservadoras e o neoliberalismo presentes na região. Segundo ele, transformar indignação social em ação coletiva é crucial para construir projetos nacionais autônomos.

A UJS também destacou que este encontro teve um caráter educativo. A liderança da entidade lembrou que cabe à juventude latino-americana enfrentar desigualdades sociais, promover paz e fortalecer laços solidários entre os povos do continente.

“A realidade vivida na Bolívia é parte integrante da mesma ofensiva promovida pelos Estados Unidos em toda América Latina”, afirmou uma representante da UJS, reforçando que a defesa da soberania brasileira está intimamente ligada à proteção dos recursos bolivianos. O evento finalizou com um compromisso coletivo em torno do conceito de “Pátria Grande”, reconhecendo-o não apenas como um slogan político, mas sim como uma necessidade vital diante das ambições das potências globais sobre os recursos estratégicos do continente.

No contexto atual marcado por disputas internacionais reconfiguradas e pelo avanço das forças conservadoras em diversos países latino-americanos, este encontro reafirmou uma convicção histórica nos movimentos populares: a inseparabilidade entre soberania nacional e integração latino-americana dentro de um projeto político comum.

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América LatinaboliviaEscudo das AméricasEvo MoralesimperialismoindígenasnarcoterrorismoneocolonialismoPlano CondorRodrigo PazUnião da Juventude Socialista (UJS)

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