O ex-presidente boliviano Evo Morales intensificou suas críticas nesta terça-feira (23), ao afirmar que o governo de Rodrigo Paz está criando condições para uma “guerra civil” na Bolívia. Em uma entrevista à agência AFP, realizada em seu abrigo em Lauca Eñe, na região rural do Chapare (Cochabamba), Morales afirmou que não considera a possibilidade de se render ao mandado de prisão que pesa contra ele, em meio a uma crise de desabastecimento que já se arrasta por sete semanas e levou o atual presidente a declarar estado de exceção.
Morales argumentou que a combinação de políticas econômicas neoliberais, repressão estatal e perseguições políticas está exacerbando a pior crise econômica que a Bolívia enfrenta nas últimas décadas. Nos últimos dias, bloqueios de estradas organizados por movimentos sociais e camponeses resultaram na escassez de alimentos, remédios e combustíveis em várias partes do país. O governo culpa Morales pela mobilização popular e decidiu instaurar o estado de exceção para liberar as vias bloqueadas.
A previsão de um colapso violento não é algo novo. Há duas semanas, durante uma videoconferência com militantes da União da Juventude Socialista (UJS) e do PCdoB, no dia 10 de junho, Morales já tinha sinalizado a escalada rumo a um possível conflito armado interno.
De ‘terrorismo de estado’ à guerra civil
<pNo encontro com os jovens socialistas, Evo não havia utilizado diretamente o termo “guerra civil”, mas descreveu com clareza a estratégia que chamou de “narcoterrorismo de Estado”. Nesse contexto, ele denunciou que o governo de Paz e setores da direita em Santa Cruz estavam fomentando confrontos entre civis, com apoio das forças policiais.
No mesmo evento, Morales alegou que as autoridades estavam provocando hostilidades entre bolivianos ao invés de buscar soluções pacíficas para a crise. Ele mencionou um incidente em San Julián, onde grupos armados civis de Santa Cruz teriam sido colocados frente a frente com manifestantes camponeses sob os olhos da polícia.
“Quatro dias atrás em San Julián, [Rodrigo Paz] chegou com civis armados de Santa Cruz. A polícia observa enquanto os civis se confrontam. Isso é terrorismo de Estado”, declarou Evo à UJS. Ele também destacou que a mudança da narrativa oficial do “combate ao comunismo” para “combate ao narcoterrorismo” seria um pretexto para criminalizar movimentos populares e justificar intervenções militares, sugerindo que o governo estaria convertendo mobilizações sociais em questões policiais, intensificando a polarização política no país.
A análise política feita anteriormente por Morales agora se transforma em um aviso sobre uma possível ruptura institucional. Com o estado de exceção declarado no último sábado (20) e a ameaça de intervenção militar no Chapare para prendê-lo, ele transformou sua previsão em ultimato: “Quem negocia sua sobrevivência não é digno. Eu nunca negociei.”
O cerco no Chapare e a ‘mentirocracia’
A entrevista ocorreu sob severas medidas de segurança. Para chegar até Lauca Eñe, jornalistas enfrentaram diversos postos de controle estabelecidos por apoiadores do ex-presidente, alguns armados com armas improvisadas. Essa situação reflete um país dividido, onde a falta de alimentos, combustíveis e medicamentos converteu as estradas em verdadeiras trincheiras.
Morales encontra-se sob um mandado de prisão devido a uma acusação relacionada ao tráfico de menores — uma acusação que ele classifica como “processo fabricado” e uma “piada” — e critica o governo Paz por utilizar o sistema judiciário como ferramenta política. “Não encontraram nada relacionado ao narcotráfico ou corrupção. Como não sou corrupto, tentam me rotular como ‘pedófilo’”, disparou.
Na conversa com a AFP, ele atribuiu o aumento das mobilizações sociais à crescente pobreza, desemprego e deterioração das condições de vida da população. Segundo o ex-presidente, essa insatisfação resulta da adoção de um modelo econômico que rompeu com as diretrizes dos governos do Movimento ao Socialismo (MAS).
Para Morales, resolver essa crise vai além da simples remoção dos bloqueios ou adoção de medidas repressivas. “Se não abordarmos a questão estrutural — que é econômica — qualquer grupo pode se mobilizar a qualquer momento”, alertou.
Ele também relacionou a atual situação às preocupações sobre privatizações em setores estratégicos como energia, água, telecomunicações, saúde e educação — tópicos historicamente sensíveis para os movimentos populares bolivianos.
Morales vê essa crise não como um mero acidente passageiro, mas sim como resultado deliberado da imposição de um “Estado colonial” aliado a um pacote neoliberal. Ele citou o Decreto Supremo 5503, que permite uma “livre contratação” (flexibilização extrema das leis trabalhistas) e “livre importação”, além do fim dos subsídios aos combustíveis — medidas que contribuíram para levar o país à atual penúria.
Geopolítica e o fim dos subsídios
No encontro anterior com a UJS, Evo já discutia uma escalada repressiva caracterizada pela criminalização dos movimentos sociais e pelo estímulo ao confronto entre diferentes setores populacionais; agora ele transforma essas observações em um alerta claro sobre os riscos reais de uma ruptura institucional e conflito interno iminente.
Seu diagnóstico liga o caos interno na Bolívia a uma ofensiva continental mais ampla. Ele adverte que a doutrina do “Escudo das Américas”, proposta pela direita regional alinhada aos interesses estadunidenses, visa retomar o controle sobre os recursos naturais do país — especialmente lítio e gás — às custas da soberania nacional.
Diante da grave crise humanitária — marcada por relatos sobre voos fretados transportando frangos congelados em caixas térmicas e filas intermináveis por gasolina em La Paz –, o governo Paz tenta conter as consequências através da militarização das ruas. Entretanto, essa estratégia parece ter gerado efeitos inversos. Ao instaurar estado de exceção, Paz forneceu argumentos suficientes para Evo mobilizar sindicatos cocaleros e movimentos indígenas para resistir armadamente caso as forças estatais tentem adentrar na região do Trópico de Cochabamba.
Um país sem saídas institucionais
A conclusão da crise boliviana aponta para um beco sem saída institucional claro. Rodrigo Paz assumiu em novembro de 2025 prometendo acabar com 20 anos de “socialismo comunitário”, mas sua popularidade despenca diante da incapacidade em garantir abastecimento básico à população. Sua estratégia baseada na repressão e judicialização da oposição (através da tese do “narcoterrorismo”) apenas radicaliza aqueles ainda dispostos à resistência nas ruas.
Apesar disso tudo, Morales evita apresentar uma guerra civil como inevitável; nas suas declarações, esse conflito surge como consequência das decisões governamentais imprudentes e do agravamento econômico atual — não como algo já consumado. Ao afirmar que “diante qualquer intervenção militar ou policial os camponeses resistirão”, ele sublinha que a Bolívia não está caminhando para uma normalização democrática; pelo contrário: avança rumo a um conflito assimétrico.
Caso o governo Paz decida recuar diante dessa pressão popular, poderá perder tanto autoridade quanto capacidade para implementar seu ajuste fiscal; contudo, se optar por avançar sobre o Chapare corre o risco real de transformar essa teoria sobre “guerra civil”, apontada por Evo Morales há tempos atrás, numa tragédia concreta.

