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O que aconteceu com o alarde sobre a dívida dos países desenvolvidos?

Recife CotidianoRecife Cotidianosetembro 3, 2026 26 Minutes read0

Conforme informações do Ministério das Finanças japonês, a dívida pública do Japão oscila entre 230% e 250% do seu PIB (Produto Interno Bruto). No primeiro trimestre de 2026, a Itália registrou uma relação de 139%, enquanto os Estados Unidos ultrapassaram a marca de 123%, atingindo mais de US$ 40 trilhões.

A França, por sua vez, viu sua relação dívida/PIB chegar a 117% ao final do primeiro trimestre deste ano, enquanto o Canadá se aproxima de 113%. O Reino Unido, em um cenário semelhante, apresenta uma dívida que corresponde a cerca de 101% do seu PIB.

Todas essas nações fazem parte do G7, um grupo que reúne os países mais ricos e desenvolvidos do hemisfério norte.

Esses países frequentemente são citados como modelos de progresso e desenvolvimento, sendo que alguns são admirados pelo alto padrão de consumo e renda, enquanto outros se destacam por seus avanços em áreas sociais. Apesar disso, todos enfrentam desafios contemporâneos comuns a diversas nações ao redor do mundo.

No imaginário coletivo, esses países servem frequentemente como referência positiva quando se compara com o Brasil, especialmente no contexto de identificar possíveis atrasos no desenvolvimento nacional.

Leia mais: Lula afirma na Globo que o baixo crescimento e os juros altos são os verdadeiros problemas

No entanto, as comparações sobre a relação de endividamento do Brasil costumam ser omitidas nessas análises. Economistas ortodoxos no país têm alertado sobre o fato de que a dívida pública brasileira alcançou 82,5% do PIB. A grande mídia reforça essa narrativa alarmista, transformando uma margem que poderia permitir investimentos em um aspecto extremamente preocupante — o que não é verdade.

Outro membro do G7 é a Alemanha, que contrasta com os demais países ao apresentar uma dívida equivalente a apenas 64,4% do PIB. Esse baixo percentual aponta para uma realidade diferente: a estagnação econômica.

Diante desse panorama, surge a questão: por qual razão há tanto alarmismo em relação ao Brasil, que não se encontra nem perto da estagnação nem em níveis elevados de endividamento quando comparado às nações consideradas mais ricas?

A falsa trombeta do Apocalipse

O mercado financeiro brasileiro tem demonstrado um viés político-ideológico ao longo dos anos. A aversão ao governo Lula não é novidade, mesmo com políticas econômicas e sociais aparentemente eficazes.

A pressão por austeridade nunca esteve ausente nas conversas do mercado financeiro nacional, mesmo com taxas de juros elevadas que beneficiam esses agentes. Na verdade, o desejo não é apenas pela redução das taxas; é também pela diminuição dos recursos destinados às políticas sociais e à população carente.

A busca desenfreada pelo lucro se alia à grande mídia para sustentar altos índices de rentabilidade com juros exorbitantes e criar um clima de caos em prol de interesses como privatizações. Isso inclui ataques ao funcionalismo público e aos benefícios sociais.

Leia mais: Economista aponta que pressão por austeridade transforma dívida em alarmismo

Com isso, o anúncio constante sobre uma crise iminente na economia nacional alimenta um imaginário caótico que não condiz com a realidade.

Quando o presidente Lula contestou as alegações sobre uma elevada dívida durante entrevista ao Jornal Nacional, críticos apressaram-se em afirmar que o real temor reside na trajetória dessa dívida. Eles argumentam que os altos juros e investimentos governamentais poderiam levar o Brasil aos mesmos caminhos da Argentina ou da Venezuela.

Contudo, vale destacar que Lula critica abertamente os elevados juros estabelecidos pelo Banco Central, que foram mantidos elevados mesmo diante da desaceleração da inflação.

Pedir cortes nos investimentos públicos parece antipatriota em um país como o Brasil; analistas chegaram até a sugerir diminuição da oferta de crédito pelos bancos públicos sob a alegação de que isso inflacionaria a economia. No entanto, ações prejudiciais ao país têm sido observadas com frequência recente; um exemplo disso são as tarifas impostas por Donald Trump apoiadas por setores bolsonaristas.

Retroalimentação

No Brasil, diversos fatores — como inflação, expectativas econômicas e risco fiscal — são utilizados para justificar uma política monetária excessivamente restritiva. Contudo, essa abordagem produz resultados sobre esses mesmos fatores já mencionados, especialmente porque uma parte significativa da dívida está atrelada à Selic (taxa básica de juros).

No caso dos outros países mencionados anteriormente com dívidas muito superiores à brasileira, nota-se uma maior flexibilidade em relação aos riscos econômicos e isso permite operar com taxas de juros significativamente menores.

Superávit

Como enfatizou o professor Marcelo Manzano ao Vermelho, o presidente Lula demonstra um forte compromisso com o superávit fiscal — um indicador crucial para avaliar a capacidade do país em honrar suas dívidas. Portanto, as atuais preocupações acerca da dívida pública podem ser vistas como chantagem desnecessária.

Entre 2003 e 2010, durante seus mandatos presidenciais anteriores, Lula conseguiu manter superávit fiscal nos oito anos consecutivos no governo brasileiro — fato inédito entre todos os membros do G20.

Leia mais: Orçamento para 2027 revela aperto fiscal e prevê juros elevados

Recentemente, o governo encaminhou ao Congresso Nacional o Orçamento referente a 2027 prevendo um superávit primário efetivo de R$ 20 bilhões — indicando que espera arrecadar mais recursos do que gastará antes dos pagamentos referentes aos juros da dívida. Esse montante representa o melhor resultado previsto desde 2014 quando foi projetado um superávit de R$ 86 bilhões para 2015.

O exemplo da China

No artigo intitulado A China zomba dos “ajustes fiscais”, Elias Jabbour da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), candidato a deputado federal pelo PCdoB-RJ utiliza a experiência chinesa para criticar a lógica vigente dos “ajustes fiscais” no Brasil.

De acordo com Jabbour, o endividamento dos governos locais na China não contradiz seu modelo econômico; pelo contrário: faz parte da estratégia estatal focada no desenvolvimento através da criação monetária e intermediação financeira pública para financiar governos locais e empresas. Nesse modelo econômico as políticas monetárias e fiscais servem como ferramentas para viabilizar projetos sociais e econômicos. Um exemplo disso é o pacote anunciado pelo governo chinês no valor de US$ 1,4 trilhão destinado à crise imobiliária e às dívidas locais.

Leia mais: Entenda qual é a função da dívida pública e como ela difere da dívida familiar

<p:Jabbour argumenta ainda que a China deve continuar adotando políticas fiscais expansivas devido aos desafios internos e à competição geopolítica pela liderança tecnológica. Para criar cerca de 12 milhões novos empregos urbanos anualmente e aumentar sua autonomia nos setores estratégicos como semicondutores e inteligência artificial é necessário mobilizar grandes volumes financeiros semelhantes aos investimentos realizados pelos Estados Unidos. Ele estima que entre 2025 e 2030 serão investidos US$ 1,4 trilhão apenas em inteligência artificial.

Dessa forma, segundo Jabbour, a China não visa subordinar sua política fiscal ou monetária à lógica estritamente contábil do equilíbrio orçamentário; mas sim utilizá-las como instrumentos voltados para ampliar sua capacidade produtiva e consolidar seu desenvolvimento visando liderar no campo tecnológico mundial.

A experiência chinesa oferece uma perspectiva contrastante ao caminho austero seguido no Brasil frente às preocupações relacionadas à dívida pública. Em vez de tratar o equilíbrio fiscal como um objetivo isolado , seria benéfico olhar para as lições chinesas sobre como utilizar política fiscal e monetária para fomentar investimentos estratégicos voltados à capacidade produtiva e desenvolvimento econômico sustentável.

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Chinadívida públicaDívida Pública dos EUAEconomiaElias JabbourG7Governo Lulajurossuperávit fiscalTaxa de juros

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