A intensificação dos ataques israelenses no Líbano revela intenções claras e estratégicas. Poucas horas após a declaração de um cessar-fogo parcial com o Irã, mediado pelo Paquistão para evitar um confronto direto, Israel iniciou uma ofensiva massiva, atingindo mais de cem locais no território libanês. Essa operação resultou em centenas de fatalidades e contribuiu para um êxodo que já ultrapassa um milhão de pessoas deslocadas. Em resposta a essa escalada, Teerã ameaçou romper o acordo, caso as situações no Líbano e em Gaza não sejam incluídas na trégua. Entretanto, Benjamin Netanyahu reafirmou sua posição ao afirmar que o cessar-fogo “não se aplica ao Líbano”.
Para o Partido Comunista de Israel (PCI) e a coalizão Hadash — que une árabes e judeus em torno de uma agenda democrática e antiocupação — a ação se traduz como um “massacre criminoso”, refletindo a fragilidade política do governo atual. Em um comunicado oficial, ambas as entidades destacam que a trégua com o Irã representa um progresso que deve ser transformado em paz duradoura. Ao mesmo tempo, alertam que Netanyahu busca desestabilizar qualquer possibilidade de paz, uma vez que o fim das hostilidades poderia significar a perda de sua legitimidade política.
Yoáv Goldring, líder histórico do Maki (Partido Comunista) e da Hadash, discutiu em uma entrevista o raciocínio por trás da violência perpetuada. Ele argumenta que a abordagem de “guerra contínua” é essencial para manter coesa a base eleitoral de Netanyahu. Além disso, Goldring denuncia as intenções genocidas presentes em certos setores da coalizão governamental, que propõem a expulsão das comunidades xiitas localizadas ao sul do Rio Litani. “A meta é forçar toda a população para o norte dessa linha, repetindo táticas históricas com uma agressividade sem precedentes”, declarou.
Os acontecimentos recentes corroboram essa visão expansionista. O ministro da Defesa, Israel Katz, revelou planos para ocupar áreas até o Rio Litani, abrangendo aproximadamente 10% do território libanês e proibindo o retorno de civis. Isso se dá utilizando um modelo de controle comparável ao aplicado em Gaza. Sob diretrizes expressas de Netanyahu, as Forças Armadas têm operado na destruição sistemática de vilarejos e infraestruturas visando estabelecer uma “zona de segurança”.
Goldring também enfatiza que os ciclos políticos influenciam diretamente a intensidade dos ataques. Com eleições agendadas para outubro — podendo ser antecipadas para junho devido à pressão popular crescente — ele observa: “As ruas estão sendo ocupadas pela população e os partidos de centro-esquerda começam a acompanhar esse movimento. Contudo, a polícia está extremamente politizada e reprime manifestações não por aglomerações, mas pela sua natureza antigovernamental”.
O fator econômico: Arábia Saudita e controle energético
A escalada do conflito também impacta o cenário econômico global. Em resposta à ameaça iraniana de bloquear o Estreito de Ormuz, a Arábia Saudita ativou ao máximo seu oleoduto East-West (Petroline), com 1.200 km de extensão que permite transportar petróleo diretamente ao porto de Yanbu no Mar Vermelho, evitando assim este ponto crítico. Segundo informações divulgadas, Riad aumentou imediatamente o fluxo após o agravamento das tensões regionais.
Do ponto de vista geopolítico, essa situação serve aos interesses dos Estados Unidos. Goldring argumenta que interromper o fornecimento energético à China — principal rival dos EUA — é uma das bases desta guerra. Trata-se de uma estratégia voltada ao isolamento não apenas do Irã, mas também do bloco BRICS, cuja ampliação é percebida como uma ameaça direta à supremacia americana. A guerra híbrida combina força militar com controle energético para garantir que as normas do mercado global permaneçam sob domínio estadunidense.
O caminho da paz
Para as forças progressistas israelenses, soluções baseadas na força não são viáveis. O PCI e a Hadash reiteram que a estabilidade na região depende do fim da ocupação e da criação de um Estado Palestino soberano nas fronteiras definidas em 1967. Goldring convoca à formação de uma ampla frente que enfrente a lógica colonial do governo atual e proponha uma alternativa moral ao país.
Enquanto Netanyahu tenta consolidar sua sobrevivência política através da violência exacerbada no sul do Líbano, esta região sofre intensamente enquanto o mundo observa os riscos associados a uma crise energética sem precedentes. Para os grupos progressistas israelenses, qualquer aparente “calmaria” que ignore as múltiplas agressões é ilusória; somente com o fim da ocupação será possível alcançar uma paz verdadeira.

