Uma carta aberta foi divulgada por figuras proeminentes do cinema brasileiro, incluindo Wagner Moura, Fernando Meirelles e Sônia Braga, solicitando uma “rigorosa atenção internacional” para o segundo turno das eleições presidenciais, agendado para 25 de outubro.
O manifesto, que foi publicado neste sábado (10), reúne diversos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas do Brasil e expressa “preocupação com a atual situação política no país”. Os signatários pedem que a comunidade global acompanhe o processo eleitoral de perto e exigem investigações independentes sobre alegações de interferência externa e irregularidades nas plataformas digitais.
A missiva ressalta que Lula e Flávio Bolsonaro finalizaram o primeiro turno com uma diferença de apenas 1,87 ponto percentual, em um contexto eleitoral marcado por intensa polarização. Para os signatários, essa realidade demanda um controle mais rigoroso quanto ao respeito às normas democráticas.
Denúncias de interferência estrangeira e redes sociais
Entre as situações mencionadas está a informação divulgada pelo jornal britânico The Guardian, que aponta que o governo dos Estados Unidos teria destinado aproximadamente US$ 1 milhão de um fundo de direitos humanos do Departamento de Estado para um projeto chamado “Combate ao Lawfare e à Censura no Brasil”.
Os artistas também citam denúncias sobre possíveis manipulações na distribuição de conteúdo político nas redes sociais da Meta. O documento menciona relatos específicos sobre redução de alcance e acesso limitado às contas de Lula no Instagram, além de problemas na visibilidade em buscas e restrições à promoção paga dessas publicações.
Outro caso destacado refere-se a um site norte-americano que supostamente ofereceu anúncios em apoio a Flávio Bolsonaro em troca de pagamentos em criptomoedas, sob a alegação de financiar iniciativas para crianças em Uganda. A carta ainda aborda investigações da Polícia Federal relativas a suspeitas de pagamentos diretos a eleitores em áreas rurais.
A carta enfatiza que as acusações devem ser investigadas com total transparência, evitando julgamentos precipitadas sobre os casos apresentados.
Preocupações com as propostas de Flávio
No manifesto, uma parte significativa é dedicada às propostas e declarações feitas por Flávio Bolsonaro. Os signatários expressam apreensão com a promessa do candidato de substituir a Constituição vigente de 1988 por um novo texto elaborado por um Congresso dominado pela direita.
Os artistas argumentam que tal proposta deve ser analisada à luz das tentativas de ruptura institucional atribuídas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, pai do candidato. Além disso, o documento menciona as investigações relacionadas ao plano golpista e acusações sobre planos contra Lula e Geraldo Alckmin.
Os signatários ressaltam ainda que Flávio Bolsonaro se comprometeu a conceder anistia ao pai caso seja eleito presidente.
Nesse contexto, a carta critica o que considera uma normalização das acusações e propostas potencialmente preocupantes por parte da imprensa brasileira, sugerindo que essas questões merecem um maior escrutínio público.
Audiovisual em perigo
Os profissionais da cultura afirmam que a disputa eleitoral está intimamente ligada ao futuro da indústria audiovisual nacional.
O documento recorda ações tomadas durante o governo Jair Bolsonaro, como o fechamento do Ministério da Cultura, a paralisação dos programas de financiamento e o enfraquecimento das instituições culturais. Também são mencionadas denúncias de censura e há preocupações sobre uma possível repetição dessas políticas.
“A defesa da liberdade de expressão e a garantia da sustentabilidade da indústria audiovisual brasileira são inseparáveis da luta pela democracia”, defende o texto.
Para os signatários, este setor necessita urgentemente de políticas públicas que garantam financiamento adequado, instituições culturais robustas e liberdade artística para continuar sua produção e fomentar empregos com alcance internacional.
Convocação à comunidade internacional
No encerramento da carta, os cineastas destacam que os eventos ocorrendo no Brasil devem ser vistos dentro do panorama latino-americano. Eles convocam veículos estrangeiros, instituições culturais e organismos competentes para acompanhar atentamente o segundo turno das eleições.
A mensagem pede uma cobertura rigorosa da imprensa internacional, solicita à comunidade audiovisual global uma ampliação do debate e exige das instituições responsáveis investigações independentes sobre as alegações apresentadas.
Dentre os mais de 70 signatários estão ainda nomes como Alice Braga, Daniel Filho, Kleber Mendonça Filho, Lais Bodanzky e Maria Augusta Ramos — todos profissionais respeitados no cinema brasileiro.
A manifestação amplia a participação dos representantes culturais no debate eleitoral e posiciona a defesa da democracia, liberdade de expressão e políticas voltadas ao audiovisual como questões centrais para o setor neste segundo turno.

