O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, expressou sua indignação com as ameaças de aliados do candidato Flávio Bolsonaro (PL) de promover uma ‘faxina’ nos embaixadores do Itamaraty, caso o candidato vença a eleição. Em uma entrevista ao jornal “Estado de S. Paulo”, o chanceler demonstrou preocupação com a possibilidade de uma equipe de transição ser formada em colaboração com o governo Donald Trump para gerenciar o processo de transição: “Querem fazer a transição e entregar tudo antes (aos EUA)?”.
Vieira também comentou que, até o momento, não foram apresentadas propostas específicas no programa de governo de Flávio Bolsonaro sobre sua política externa, o que o impede de oferecer uma opinião mais fundamentada.
Quando questionado sobre a anunciada “faxina” nos embaixadores promovida pela extrema direita, Mauro Vieira foi direto em sua crítica, ressaltando que tal atitude não tem espaço em uma democracia.
O ministro considerou lamentável a ideia de que Flávio Bolsonaro pretenda submeter o Brasil aos interesses dos Estados Unidos. Essa declaração surge em um contexto onde apoiadores do candidato mencionaram a formação de um comitê para articular ações com os EUA logo no início de uma possível nova administração.
A proposta inclui a criação de uma equipe de transição que atuaria diretamente com os EUA, permitindo que Trump influenciasse a formulação da política brasileira.
Leia mais: Flávio Bolsonaro planeja desmonte do Itamaraty inspirado em Marco Rubio
Mauro Vieira manifestou estar estarrecido diante da possibilidade de se estabelecer um precedente inédito nas relações diplomáticas brasileiras.
“Nunca vi isso. Ao longo dos meus 50 anos na carreira diplomática, nenhum país fez algo semelhante. A transição deve ocorrer entre os governos que estão saindo e os que estão assumindo. Criar uma equipe para passar informações é normal entre essas partes. Entretanto, fazer isso com um país estrangeiro? Para se submeter antes do tempo? Isso é um péssimo sinal,” criticou o chanceler.
O ministro ainda afirmou que qualquer tentativa de desmantelar a estrutura do Itamaraty representa um grave risco aos interesses nacionais. Ele enfatizou que os diplomatas trabalham para o Brasil e o governo vigente e se alguém estiver insatisfeito, pode optar por se afastar ou se aposentar.
Vieira foi claro ao afirmar que não existe “ideologização” na política externa brasileira, como alegam alguns setores bolsonaristas, e assegurou que o Brasil mantém diálogo aberto com todos os membros da ONU “independentemente de colorações políticas ou ideológicas.”
Sobre alegações de um isolamento político irrealista, Vieira destacou que o Brasil nunca esteve nessa condição e nunca estará. Ele citou como exemplo a continuidade das conversas com os Estados Unidos mesmo após as tensões recentes relacionadas ao ‘tarifaço’.
Leia mais: Economista diz que é “gravíssima” oferta de Flávio a Trump para transição de governo
No entanto, ele observou que o governo dos EUA sob Donald Trump tomou partido nas eleições brasileiras. Por outro lado, não soube informar se houve interferência direta nesse processo eleitoral, como tem sido noticiado pela imprensa.
No final da conversa, sobre as ações polêmicas de Eduardo Bolsonaro nos EUA, onde ele está foragido da Justiça brasileira, Vieira lamentou as táticas destrutivas adotadas pela família Bolsonaro durante o episódio do ‘tarifaço’ e declarou não conhecer Eduardo: “Eu tenho mais o que fazer.”

