O periódico britânico The Guardian traçou um paralelo entre a pressão exercida pelo governo de Donald Trump sobre o Brasil e a intervenção dos Estados Unidos na política brasileira que precedeu o golpe militar de 1964.
A matéria sugere que as ações de Washington contra o governo de Lula possuem similaridades com a operação realizada pela CIA e pelo Departamento de Estado para desestabilizar João Goulart no início da década de 1960.
Atualmente, segundo a publicação, os EUA estariam financiando uma campanha de pressão tanto econômica quanto diplomática, que pode beneficiar o senador Flávio Bolsonaro (PL), um opositor de Lula nas eleições presidenciais programadas para outubro.
Dentre as iniciativas mencionadas estão a imposição de tarifas de 25% sobre a maior parte das importações brasileiras e a designação do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas estrangeiras.
Autoridades brasileiras consultadas pelo Guardian interpretam que essa classificação das facções busca fortalecer a narrativa de que Lula não é suficientemente rigoroso no combate ao crime.
No mês de julho, o governo brasileiro negou vistos a dois representantes do governo Trump que tinham planos de se encontrar com Flávio Bolsonaro. Na ocasião, Lula declarou que esses indivíduos pretendiam “interferir nas eleições brasileiras”.
A reportagem também recorda que, em 1962, a CIA e o Departamento de Estado direcionaram recursos secretamente para candidatos da oposição e organizações que promoviam propaganda conservadora, fomentando a instabilidade contra Goulart.
Entre essas entidades estavam o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad) e o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes).
Os historiadores Lilia Schwarcz e Heloisa Starling afirmam que o intuito daquela operação era criar uma oposição robusta no Congresso, bloquear iniciativas governamentais e preparar o cenário para o golpe. O regime militar instaurado em 1964, com apoio dos Estados Unidos, perdurou por 21 anos, resultando em centenas de mortos e desaparecidos.
Na visão do historiador James N. Green, da Universidade Brown, existe um paralelo entre as tarifas adotadas por Trump contra o Brasil e as estratégias utilizadas por Washington para enfraquecer Goulart através do financiamento da oposição e da suspensão de empréstimos.
“Assim como naquele período, o governo dos EUA estava decidido a fazer tudo ao seu alcance para minar o governo brasileiro”, destacou ele.
Por outro lado, o cientista político Celso Rocha de Barros ressaltou uma diferença significativa: a interferência atual é explícita. “A maior superpotência da história humana está apoiando abertamente um candidato em nossa eleição enquanto estrangula a economia brasileira para ajudá-lo [a vencer]”, afirmou.

