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Angela Davis afirma: ‘O fascismo surge, mas não é apoio popular

Recife CotidianoRecife Cotidianojulho 30, 2026 36 Minutes read0

A participação de Angela Davis na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2026, que nesta edição atraiu o maior público desde sua criação, transcendeu as discussões sobre literatura. Em um dos eventos mais populares da programação paralela, a renomada intelectual comunista abordou temas além do universo literário. Ela defendeu uma perspectiva feminista anticapitalista, denunciou o crescimento da extrema direita e utilizou o pensamento de intelectuais brasileiras como base para refletir sobre capitalismo, racismo e os desafios das lutas emancipatórias no século XXI.

Davis, ao criticar questões como racismo, gentrificação e a concentração de riqueza, destacou que a produção intelectual oriunda do Sul Global é fundamental para o desenvolvimento do pensamento crítico atual.

Memória, território e resistência

No dia 25 de julho, em celebração ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e ao Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, ocorreu a mesa “América e África: uma conversa Atlântica”, que reuniu um público considerável no Sesc Caborê. A jornalista Flávia Oliveira, ao iniciar o evento, ressaltou que a ausência do escritor nigeriano Wole Soyinka tornava aquele encontro um diálogo entre mulheres negras justamente na data que homenageia a luta dessas mulheres. Evocando Tereza de Benguela, ela mencionou uma das citações mais conhecidas de Angela Davis no Brasil: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela.” A partir desse ponto, o debate se ampliou para uma reflexão sobre memória, cultura, política e organização coletiva.

Angela Davis começou sua fala contextualizando Paraty como um espaço marcado pela história da escravidão e pela resistência negra. “É quase possível sentir a presença dos nossos ancestrais aqui”, afirmou.

A memória evocada por Davis rapidamente se conectou às questões contemporâneas. A filósofa relacionou a história local ao avanço da gentrificação em comunidades tradicionais e ligou esse fenômeno ao racismo ambiental e à lógica exploratória do capitalismo moderno. “Estão criando maneiras de obter mais lucro à custa das pessoas que vivem em suas terras ancestrais”, alertou.

O Brasil como referência para o pensamento emancipatório

As referências ao pensamento brasileiro foram preponderantes na conversa. Mais do que apenas homenagear intelectuais locais, Angela Davis utilizou suas obras para analisar o momento atual. Figuras como Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Conceição Evaristo, Milton Santos e Nego Bispo foram citadas como fundamentais para discutir capitalismo, colonialismo, racismo e as possibilidades de transformação social.

Lélia Gonzalez teve destaque especial nessa análise. Davis expressou sua admiração pela intelectual brasileira há anos e ressaltou a relevância do conceito de amefricanidade formulado por ela para entender as interconexões entre os povos negros e indígenas nas Américas. Ao comentar sobre sua obra, observou que a crítica ao capitalismo proposta por Gonzalez adquire ainda mais relevância “na era dos trilionários”, em um contexto marcado pela extrema concentração de riqueza e pela exploração intensiva tanto da natureza quanto das populações. Para Davis, esse modelo econômico ajuda a explicar tanto a crise climática quanto o aumento das desigualdades sociais.

Beatriz Nascimento também contribuiu para essa discussão ao vincular a experiência da diáspora negra à construção de uma identidade política. Relembrando a frase “eu sou atlântica”, Angela Davis afirmou que essa afirmação sintetiza um pertencimento capaz de conectar diferentes territórios e experiências dentro da diáspora. “Quando ela disse ‘eu sou atlântica’, expressou um sentimento que nos faz perceber que pertencemos a algo muito maior”, comentou.

A partir dessa ideia, Davis recordou sua conexão com as lutas anticoloniais durante a guerra pela independência da Argélia e destacou ter compreendido naquela época o significado político do internacionalismo – uma perspectiva que continua guiando sua atuação até os dias atuais.

A literatura também foi um aspecto importante dessa reflexão. Ao cumprimentar Conceição Evaristo na plateia, Angela Davis traçou paralelos entre sua produção literária com os trabalhos de Toni Morrison e o poder artístico de Nina Simone. Ela ainda destacou o conceito de escrevivência, apresentando-o como uma ruptura com a falsa universalidade da vivência branca e reafirmando o direito das mulheres negras contarem suas próprias histórias.

Arte como horizonte de transformação

A arte foi outro tema central abordado por Angela Davis durante seu discurso. Para ela, literatura, música e outras formas artísticas desempenham um papel crucial nos processos sociais transformadores porque permitem imaginar modos de existência ainda não contemplados pelas políticas institucionais.

<p“Há algo inerente à música, à arte e à literatura que nos possibilita explorar dimensões inacessíveis por outros meios. A arte antecipa no âmbito das experiências aquilo que os movimentos sociais almejam criar. Sabemos que queremos liberdade; sabemos que desejamos acabar com a opressão. Talvez ainda não saibamos descrever como seria esse novo mundo; porém, através da arte podemos vivenciá-lo”, explicou.

Nessa linha de pensamento, definiu a produção artística como uma força ativa nas lutas sociais. “A arte lidera as batalhas revolucionárias por mudanças significativas”, enfatizou.

Fascismo, capitalismo racial e organização popular

Caso a arte ofereça vislumbres de novos mundos possíveis, é necessário enfrentar os desafios políticos atuais. Angela Davis fez um alerta sobre o crescimento da extrema direita na Europa, Estados Unidos e América Latina afirmando que esse aumento do fascismo não representa os interesses populares. “O fascismo está emergindo; mas não entre as massas”, resumiu.

<pAo discutir o panorama brasileiro, chamou atenção para a urgência em impedir o retorno de projetos políticos vinculados ao autoritarismo. Em outro momento da conversa evitou mencionar diretamente o sobrenome Bolsonaro explicando que em tradições africanas nomear alguém é também conceder poder.

Davis encontrou uma ilustração concreta da força da organização coletiva ao recordar sua experiência na prisão quando foi injustamente acusada de conspiração. Para ela, sua libertação não resultou apenas de ações individuais mas sim da mobilização global realizada por milhões em vários países: “Quando as pessoas se unem além das fronteiras nacionais podemos desafiar até mesmo aqueles considerados mais poderosos”.

Ela continuou ligando essa experiência aos desafios enfrentados atualmente: “Precisamos construir movimentos capazes de impedir aqueles no poder de seguir adiante com suas agendas fascistas e capitalistas.”

Juventude e futuro

Aos 82 anos, Angela Davis vê nas novas gerações uma força vital nas transformações sociais. Durante entrevista ao Estadão durante sua passagem pela Flip mencionou que todas as grandes revoluções tiveram os jovens como protagonistas centrais.

“As mudanças revolucionárias sempre surgiram dos jovens”, declarou.

Davis atribuiu às novas gerações o fortalecimento do movimento climático atual assim como o avanço das lutas antirracistas e do feminismo radical comprometido com causas internacionais contra xenofobia.

Ao finalizar sua participação no evento em Paraty , lembrou que nas suas primeiras visitas ao Brasil havia muito menos estudantes negros nas universidades do país comparado aos dias atuais. Celebrou as conquistas dos movimentos sociais mas alertou contra qualquer sensação de complacência: “Conquistamos essas vitórias; no entanto não devemos nos acomodar com elas. Devemos continuar lutando”.

A advertência sintetiza bem os principais pontos discutidos durante seu tempo em Paraty. Ao longo quase duas horas de diálogo Angela Davis articulou temas como pensamento negro contemporâneo, produção cultural relevante, feminismo engajado internacionalmente e organização popular destacando que nenhuma conquista deve ser considerada definitiva; segundo ela as vitórias obtidas pelos movimentos sociais são apenas passos necessários para enfrentar as contínuas disputas políticas culturais e sociais ainda abertas.

Tags
Angela Davisculturafeminismo anticapitalistaFlip 2026

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