A resposta da China ao que foi denominado “Dia D Econômico”, uma iniciativa dos Estados Unidos no contexto de sua política contra o Irã, foi veementemente expressa em um editorial publicado nesta terça-feira (25) pelo Global Times, veículo que serve como porta-voz não oficial do governo chinês e busca atingir a audiência internacional. O texto argumenta que essa ação evidencia a vulnerabilidade da posição dos EUA na guerra contra Teerã, além de afirmar a ilegalidade da estratégia e sua ineficácia em alcançar os resultados desejados.
Um ponto crucial abordado pelo editorial é a intenção de sancionar todos os países que mantêm relações comerciais com o Irã. A mensagem deixa claro: “A China possui um robusto arsenal de ferramentas jurídicas e políticas e tomará todas as providências necessárias para proteger seus direitos e interesses legítimos. Qualquer tentativa de submeter a China por meio de sanções e pressões será um fracasso”. Confira abaixo o conteúdo na íntegra do editorial do Global Times.
“Dia D econômico”? Os EUA escolheram o roteiro errado para sancionar o Irã
A comparação entre uma campanha unilateral de sanções, sem respaldo no direito internacional e sem aprovação do Conselho de Segurança da ONU, com o desembarque aliado na Normandia — um evento crucial na luta antifascista — é completamente insensata. Transformar um conflito militar estagnado em uma disputa econômica apenas demonstra a falta de opções disponíveis para os EUA.
No início da semana, durante horário local, Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, anunciou novas sanções direcionadas ao Irã como parte de uma estratégia chamada “operação Pária Econômico”. O nome atribuído à ação — “Dia D econômico” — é particularmente curioso. A analogia entre as sanções unilaterais e as ações aliadas na Normandia é considerada por muitos como ridícula.
A proposta principal desse plano envolve a ampliação das sanções sobre nações que fazem negócios com Teerã, com o objetivo claro de “cortar todas as linhas de suporte econômico” disponíveis ao país. A percepção global tem tratado isso mais como uma tentativa corretiva dos EUA após insucessos militares. Especialistas econômicos da Bloomberg comentaram que essa abordagem deixou muitas questões sem respostas. A conversão de um impasse militar em um embate econômico revela a limitação estratégica dos EUA.
Desde 1979, os Estados Unidos têm intensificado suas sanções contra o Irã, mas nunca conseguiram forçar Teerã à submissão. Atualmente, Washington repete estratégias antigas sob a nova designação da “operação Pária Econômico”. As exportações diárias médias de petróleo do Irã caíram drasticamente de cerca de 2 milhões de barris para aproximadamente 287 mil barris em agosto. No entanto, Teerã continua tendo uma posição estratégica importante no Estreito de Ormuz e acumulou experiência significativa em lidar com sanções ao longo do tempo. Se quase cinco décadas de restrições não alcançaram seus objetivos, será que simplesmente rotulá-las como “Dia D” mudará esse cenário?
Por meio das chamadas sanções secundárias, os Estados Unidos não apenas determinam “quem pode fazer negócios”, mas tentam impor restrições aos outros países sobre “com quem eles devem negociar”. Essa abordagem abre múltiplas frentes: os EUA travam uma guerra econômica contra o Irã enquanto também se confrontam com questões relacionadas a sanções envolvendo China, Índia, Turquia e até mesmo aliados europeus. Bessent chegou a alertar que países que não colaborarem podem ser excluídos do sistema financeiro baseado no dólar.
A utilização do dólar como ferramenta punitiva transforma o sistema financeiro global em um instrumento unilateral. Quando um país tem a capacidade de cortar arbitrariamente as fontes econômicas de outro país, isso compromete as bases do comércio internacional e corrói a confiança na credibilidade do dólar mundialmente.
Sancionar economicamente pode provocar reações indesejadas em cadeia. Neste ano, os preços internacionais do petróleo já aumentaram mais de 50%. Um endurecimento adicional das restrições às exportações iranianas poderia elevar ainda mais esses preços e intensificar as pressões inflacionárias sobre uma recuperação econômica global já vulnerável. O Estreito de Ormuz é vital para o comércio energético mundial; qualquer interrupção nesse ponto poderia gerar volatilidade nos mercados globais. Quando ações econômicas são usadas como armas em guerras, os riscos superam quaisquer previsões feitas pelos EUA.
No momento atual, a prioridade deve ser diminuir tensões em vez de exacerbá-las. O diálogo e negociações são caminhos fundamentais para solucionar as hostilidades entre EUA e Irã e lidar com a questão nuclear iraniana — uma visão compartilhada pela comunidade internacional. Medidas unilaterais e ameaças não resolverão os problemas; ao contrário, apenas aumentarão as tensões e limitarão oportunidades para diplomacia. Os Estados Unidos precisam refletir sobre os impactos positivos e negativos de sua política em relação ao Irã antes de continuar avançando por um caminho que já se provou infrutífero.
A chamada “operação Pária Econômico” reflete claramente a complexidade das dificuldades enfrentadas pela política externa dos EUA. É possível que Washington tenha dúvidas sobre a eficácia dessas novas sanções. Além disso, o mundo atual não se caracteriza mais por um único país capaz de decidir unilateralmente sobre o futuro dos demais; estamos vendo uma tendência histórica irreversível rumo à multipolaridade global. Os estados estão tomando decisões independentes baseadas em seus próprios interesses nacionais, algo fundamental nas relações internacionais contemporâneas.
É crucial notar que alguns veículos americanos têm procurado desviar o foco para a China ao tentar criar uma narrativa onde o sucesso ou fracasso dessa campanha depende da cooperação chinesa. A possibilidade dos EUA utilizarem tensões regionais para aumentar sua pressão econômica sobre Pequim exige atenção cuidadosa. A colaboração da China com o Irã sempre ocorreu dentro dos limites do direito internacional e não deve ser comprometida ou interrompida por isso. A China não participa das operações militares dos EUA contra Teerã nem está envolvida nas questões nucleares iranianas; portanto, não deve ser responsabilizada pelos insucessos da política americana. Alguns setores nos EUA deveriam se concentrar em construir uma “relação construtiva entre China e EUA fundamentada na estabilidade estratégica”, ao invés de constantemente tentar criar conflitos nas relações bilaterais.
No mês passado, em maio deste ano, pela primeira vez o Ministério do Comércio da China adotou medidas bloqueadoras fundamentadas nas regras contra jurisdições extraterritoriais ilegais impostas por governos estrangeiros. Essa ordem proíbe explicitamente qualquer reconhecimento ou cumprimento das sanções aplicadas pelos Estados Unidos contra cinco empresas chinesas supostamente envolvidas em transações relacionadas ao petróleo iraniano. A China está preparada com diversos instrumentos jurídicos e políticos para defender firmemente seus direitos legítimos; tentativas de forçar Beijing à submissão através destas pressões falharão.
Editoria do Global Times – Tradução realizada com apoio tecnológico

