Na quarta-feira (15), o presidente da China, Xi Jinping, recebeu o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, no Grande Salão do Povo em Pequim. Esta reunião foi um passo preparatório para a visita oficial do presidente russo Vladimir Putin à China, programada para o primeiro semestre de 2026, e formalizou a colaboração estratégica entre as duas nações em resposta ao aumento das tensões no Irã e ao bloqueio no Estreito de Ormuz.
A situação atual, marcada pelo conflito entre Rússia e Ucrânia e pela guerra dos EUA e Israel contra o Irã, trouxe à tona os riscos associados ao unilateralismo e hegemonismo, gerando incertezas na ordem global. Frente a esse cenário, é essencial que China e Rússia intensifiquem sua comunicação e coordenação em questões cruciais, segundo análise de Zhang Hong, pesquisador do Instituto de Estudos Russos da Academia Chinesa de Ciências Sociais.
Doutrina central: Soberania e “Maioria Global”
Xi Jinping enfatizou a importância de uma coordenação estratégica mais robusta entre os dois países, ressaltando a necessidade de proteger seus interesses legítimos e promover a unidade entre os países do Sul Global. O líder chinês também observou que a estabilidade nas relações entre China e Rússia é especialmente valiosa em um contexto internacional turbulento, convocando ambas as nações a assumirem suas responsabilidades como grandes potências permanentes no Conselho de Segurança da ONU.
“A ordem internacional atual está passando por reestruturação, e espera-se que tanto a China quanto a Rússia tenham um papel significativo na formação dessa nova ordem. Ao se apoiarem em mecanismos multilaterais como a Organização de Cooperação de Xangai (OCX), o BRICS e o G20, elas têm a oportunidade de levar suas experiências em governança regional para uma escala global”, declarou Zhang Hong.
O Ministério das Relações Exteriores da Rússia descreve essa parceria como um “fator estabilizador” no cenário internacional. Lavrov destacou que as relações bilaterais funcionam como uma “âncora de estabilidade” para a “Maioria Global”, que busca um desenvolvimento sustentável sem depender de sanções unilaterais. O objetivo comum é fortalecer o BRICS e a OCX como alternativas viáveis de governança global, acelerando assim a transição para uma ordem multipolar.
Energia e crise no Estreito de Ormuz
A situação no Estreito de Ormuz — onde cerca de 20% do petróleo e gás mundiais transitam — foi prejudicada pelo bloqueio imposto pela guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã. Desde o início do conflito, o estreito tem estado amplamente fechado ao tráfego marítimo iraniano. Além disso, os militares americanos relataram na terça-feira (14) que bloquearam completamente todos os portos iranianos como parte de uma manobra para forçar Teerã a aceitar condições americanas para um cessar-fogo.
Nesse contexto desafiador para as rotas logísticas, é vital fortalecer a unidade do Sul Global. Durante sua visita à China, Lavrov expressou as expectativas russas sobre o papel dos EUA no Oriente Médio, afirmando que seu país pode ajudar a mitigar a escassez energética enfrentada pela China e outras nações. “A Rússia pode certamente compensar a falta de recursos que surgiu tanto para a China quanto para outros países que desejam colaborar conosco com base em termos iguais e mutuamente benéficos”, afirmou Lavrov em coletiva à imprensa.
Em resposta às indagações da mídia sobre essa proposta, Guo Jiakun, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, reiterou na quarta-feira que Pequim já havia exposto claramente sua posição sobre o Estreito de Ormuz, destacando os benefícios mútuos da cooperação entre China e Rússia.
A tensão diplomática reflete-se também nas ações da ONU. Em 7 de abril passado, tanto Rússia quanto China vetaram uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas que “encorajava fortemente” estados interessados em utilizar rotas marítimas comerciais no Estreito de Ormuz a coordenar esforços defensivos — uma manobra vista por essas potências como uma tentativa de legitimar presença militar ocidental na região.
Resiliência em várias frentes
A “resiliência do desenvolvimento” mencionada por Xi abrange não apenas questões energéticas mas também outros aspectos fundamentais da parceria estratégica. Isto inclui soberania tecnológica através da integração nas cadeias produtivas relacionadas a semicondutores e inteligência artificial; arquitetura financeira com sistemas alternativos ao SWIFT e maior uso das moedas locais; além da coordenação na defesa com compartilhamento de inteligência e exercícios militares conjuntos como forma de dissuasão diante da instabilidade na Eurásia.
Ponto de vista internacional
Especialistas analisam este encontro como um fortalecimento do bloco que se opõe à política externa dos Estados Unidos sob o governo Donald Trump.
A visita de Lavrov estabelece as bases para a próxima cúpula entre Xi Jinping e Vladimir Putin, onde novas parcerias estratégicas nos setores de infraestrutura energética e cooperação multilateral deverão ser anunciadas — solidificando assim o eixo Pequim-Moscou como um pilar central na ordem multipolar prevista para 2026.
