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Marilyn Monroe 100 anos depois: a face desconhecida de um ícone sexual que se interessava por Marx e Mao

Recife CotidianoRecife Cotidianojunho 4, 2026 55 Minutes read0

Norma Jeane Mortenson, conhecida mundialmente como Marilyn Monroe, teria completado 100 anos nesta segunda-feira (1/6). A atriz se tornou um dos rostos mais icônicos da cultura pop do século 20, porém a indústria cinematográfica a relegou a um estereótipo: o de uma mulher loira, sedutora e sempre pronta para o olhar masculino, eternamente lembrada como um sex symbol, cuja voz rouca entoou parabéns a um presidente.

Se existisse uma imagem que simbolizasse sua carreira, certamente seria a famosa cena de O Pecado Mora ao Lado. Nela, Marilyn está sobre uma grelha de ventilação do metrô em Nova York, enquanto seu vestido branco se levanta com a corrente de ar. A explosão de risos e surpresa na atriz transforma essa sequência em um marco da cultura pop, retratando-a como uma mulher infantilizada e alheia ao impacto de sua própria sensualidade.

A filmagem da “cena do Metrô” atraiu cerca de 2 mil espectadores, predominantemente homens. Dentre eles estava Joe DiMaggio, então esposo de Marilyn. Ele ficou furioso com a exposição da esposa e abandonou o set. Naquela mesma noite, ocorreu uma discussão que precedeu o divórcio do casal. Este episódio ilustra a tragédia de Marilyn: enquanto o mundo inteiro desejava observá-la, poucos aceitavam sua existência além do ideal criado por esse olhar.

Uma mulher engajada

Por trás da persona sexualizada, havia uma mulher ciente das dinâmicas que a transformavam em objeto. No centenário da atriz, uma homenagem inusitada veio do Partido Comunista da Grã-Bretanha. Em suas redes sociais, o partido saudou não apenas o ícone do cinema, mas também “a intelectual e camarada”, ressaltando suas raízes proletárias e seu interesse por Karl Marx e pela Revolução Chinesa, além de mencionar a vigilância que sofreu por parte do FBI devido à sua solidariedade com vítimas do racismo e do macarthismo.

Os comunistas britânicos afirmaram: “É importante reconhecer que a luta de Monroe representava a intersecção entre exploração classista e violência patriarcal. Ela era uma trabalhadora cujo corpo era seu capital, superexplorado por um sistema que demandava beleza e silêncio.” Eles concluem: “Neste centenário, não celebramos apenas uma ‘pin-up’. Prestamos homenagem a uma socialista consciente que percebeu que sua libertação estava atrelada à libertação de seu gênero.”

Neste cenário atual de polarização política e ascensão da extrema direita, há um real risco de que a memória de Marilyn Monroe seja distorcida ou silenciada. Entretanto, essa homenagem ajuda a resgatar uma faceta da atriz muitas vezes negligenciada pela mídia tradicional: aquela com sensibilidade política forjada na luta social e simpatia por ideais progressistas.

História pessoal

Antes de se tornar o rosto mais famoso de Hollywood, Norma Jeane Mortenson viveu as experiências mais duras da América. Passou grande parte da infância em orfanatos e lares adotivos diferentes. Para evitar ser reinstitucionalizada, casou-se aos 16 anos.

Durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto seu marido servia no Pacífico, ela trabalhou na fábrica Radioplane Company em Van Nuys, onde aplicava retardadores de chamas nas aeronaves. Esse período proletário esteve longe do glamour das telas; foi ali que Marilyn entrou em contato direto com as realidades laborais e suas hierarquias exploratórias.

A obra Marilyn Monroe – A Biografia, escrita por Donald Spoto, revela documentos do FBI acerca das conversas informais da atriz durante uma viagem ao México em 1962. Ela demonstrava admiração pela Revolução Chinesa e desprezo pelo então diretor do FBI J. Edgar Hoover; além disso, defendia igualdade racial e direitos civis.

A vigilância sobre Marilyn durou anos — o FBI suspeitava que ela mantinha relações com comunistas americanos — até ser encerrada em 1962 sem encontrar provas concretas ligando-a ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Os arquivos também mostram que os agentes estavam preocupados com sua biblioteca recheada de obras desde Karl Marx até Mao Tsé-Tung e autores como Fiódor Dostoiévski e Walt Whitman. Marlon Brando chegou a afirmar que ela possuía “um tipo elevado de inteligência”.

A capacidade intelectual dela se manifestava em ações concretas; um exemplo notável é sua amizade com Ella Fitzgerald. Marilyn admirava profundamente Fitzgerald e fez questão de ajudá-la quando soube que o clube Mocambo se negava a contratá-la devido à cor de sua pele. A atriz propôs ao proprietário do clube que reservasse uma mesa para ela todas as noites caso aceitasse contratar Ella. E assim foi feito; Fitzgerald recordou esse episódio em entrevista à revista Ms., afirmando: “Devo muito a Marilyn Monroe”.

No campo pessoal, Arthur Miller casou-se com Marilyn em 1956 e elogiava sua curiosidade intelectual e habilidade para discutir política e filosofia. Nos anos 40 e 50 nos EUA, quando Hollywood sofria sob o impacto da caça às bruxas promovida pelo Comitê de Atividades Antiamericanas (Huac), ele enfrentou investigações severas por suas crenças políticas. Mesmo ciente dos riscos à sua carreira associando-se publicamente a alguém na “lista negra” do macarthismo, Marilyn defendeu Miller nas audiências — questionando: “O que vale minha carreira diante da dele se as pessoas se voltarem contra mim?”.

Marilyn entendia plenamente as violências sistemáticas desse sistema explorador; embora tenha tentado usar esse mesmo sistema para conquistar poder — criando sua produtora em 1955 — nunca conseguiu escapar completamente dele. Sua tentativa foi vista como insubordinação dentro do modelo estabelecido pelas grandes produções.

Além dos estereótipos

Os cem anos desde o nascimento de Marilyn geraram homenagens previsíveis: reedições dos seus vestidos icônicos, romances fictícios sobre sua vida trágica e clichês sobre fragilidade emocional desnecessários. Contudo, houve também esforços para evocar outra versão dela — menos superficial e mais engajada politicamente.

A celebração realizada pelo Partido Comunista britânico destacou uma figura mais complexa do que aquela frequentemente retratada pela indústria cinematográfica: uma mulher oriunda da classe trabalhadora com curiosidade intelectual notável e inclinações progressistas; alguém que desafiou normas raciais ao longo da vida enquanto lutava contra o macarthismo sob constante vigilância do FBI.

A narrativa construída pela mídia hegemônica ao longo deste século apresenta uma Marilyn bidimensional — conveniente na memória coletiva mesmo tendo sido provocativa durante sua existência real. Comemorar seu centenário tem como premissa devolver à figura de Marilyn Monroe toda a profundidade histórica que lhe foi surrupiada.

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