Na última terça-feira (12), a comunidade acadêmica da Argentina se mobilizou em uma das maiores manifestações contra o governo de Javier Milei desde que ele assumiu o cargo.
Cidades como Buenos Aires, Córdoba, Rosario, La Plata e várias outras localidades do país acolheram cerca de 1,5 milhão de pessoas que se reuniram para protestar contra o desfinanciamento das universidades públicas, a deterioração dos salários dos docentes e o não cumprimento, por parte da Casa Rosada, da Lei de Financiamento Universitário aprovada pelo Congresso argentino.
Estudantes, professores, funcionários técnico-administrativos, reitores e pesquisadores levaram a quarta Marcha Federal Universitária às ruas, transformando-a em um grande protesto nacional contra as políticas de austeridade implementadas por Milei.
Um dos principais focos das manifestações foi a cobrança ao governo ultraliberal por ignorar há mais de 200 dias as normas que asseguram recursos mínimos para o funcionamento das universidades públicas. Essa situação agrava uma crise que já ameaça salários, pesquisas, obras de infraestrutura e até mesmo a permanência de professores nas instituições.
A marcha também trouxe à tona críticas sobre o que os organizadores denominaram “quebra do pacto democrático”.
Durante o ato central, um documento conjunto foi lido por entidades universitárias que destacaram a indiferença do governo em relação às decisões do Legislativo e ao desrespeito por sentenças judiciais que requerem a aplicação da lei.
Os organizadores enfatizaram: “Quando o governo decide quais leis cumprir e quais decisões judiciais acatar, não apenas o orçamento universitário é comprometido, mas também a própria integridade do Estado de Direito.”
A mobilização contou com a presença de sindicatos docentes, entidades estudantis e reitores universitários. O governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, esteve presente em um dos grupos da marcha e afirmou que “defender a universidade pública é uma luta que diz respeito a todo o povo argentino”.
Universidades alertam sobre colapso orçamentário e perda histórica nos salários
As instituições universitárias afirmam que o sistema público de ensino superior enfrenta uma situação “crítica” devido ao ajuste fiscal promovido pelo governo Milei.
Dados apresentados pelos organizadores indicam que as transferências federais destinadas às universidades tiveram uma redução real acumulada de 45,6% entre 2023 e 2026.
Além da diminuição orçamentária, docentes e trabalhadores técnico-administrativos relatam uma significativa deterioração salarial.
Sindicatos informam que tanto professores quanto funcionários não docentes perderam cerca de 37% do poder aquisitivo desde o início do governo Milei, equivalente a quase 11 salários ao longo desse período.
Segundo as entidades representativas, os salários atuais estão entre os mais baixos desde a restauração da democracia na Argentina.
No decorrer da marcha, muitos trabalhadores expressaram que precisam acumular mais de um emprego para conseguir equilibrar suas finanças mensais.
Em entrevistas concedidas à imprensa argentina, docentes relataram que os baixos vencimentos têm levado a renúncias em massa nas universidades e impactado diretamente na qualidade da educação oferecida.
Um professor auxiliar da Universidade de Buenos Aires (UBA) revelou receber aproximadamente 211 mil pesos por uma carga horária semanal de dez horas — equivalente a cerca de R$740 em uma Argentina ainda marcada pela inflação e pelo aumento no custo de vida.
A crise também afeta áreas cruciais da pesquisa científica e tecnológica. Reitores alertaram para os riscos que vêm com cortes orçamentários, salários insuficientes e paralisia nas obras de infraestrutura, ameaçando desmantelar parte significativa do sistema universitário argentino, tradicionalmente reconhecido na América Latina pela gratuidade e forte presença pública.
Governo tenta desacreditar protestos enquanto aumenta tensões com universidades
Poucas horas antes da manifestação, membros do governo argentino tentaram desqualificar os protestos através das redes sociais e entrevistas à mídia.
O subsecretário de Políticas Universitárias, Alejandro Álvarez, descreveu a marcha como uma “mentira emocional” e acusou as universidades de distorcer dados relacionados ao financiamento. Essa estratégia reflete a antiga tática de atacar quem transmite a mensagem ao invés do conteúdo em si.
A administração também voltou a criticar a presença de estudantes estrangeiros nas universidades públicas, especialmente nos cursos de Medicina. Álvarez afirmou que esses alunos representariam cerca de 40% dos inscritos em Medicina na UBA e mais da metade na Universidade de La Plata.
No entanto, informações oficiais do próprio Ministério da Educação argentino revelam que alunos estrangeiros somam apenas 4,1% do total matriculado no sistema universitário nacional.
Outro argumento levantado pelo governo foi o suposto “alto custo” para cada aluno formado nas universidades nacionais.
No entanto, pesquisadores e entidades acadêmicas contestaram essa narrativa extrema-direitista. Rodrigo Quiroga, pesquisador do Conicet, destacou que o sistema universitário argentino continua sendo “eficiente e econômico” quando comparado aos países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Enquanto criticava as universidades públicas, o governo Milei anunciou um novo corte superior a 5 bilhões de pesos em obras educacionais — aproximadamente R$18 milhões segundo a cotação atual — dentro de um ajuste geral superior a 78 bilhões de pesos no setor educacional totalizando cerca de R$275 milhões.
A marcha intensifica desgaste político de Milei e promove unidade na oposição
A nova Marcha Federal Universitária acontece em meio ao crescente desgaste político do governo argentino diante das críticas relacionadas à recessão econômica, alta inflação e deterioração das condições sociais no país.
A defesa das universidades públicas se tornou um dos principais focos de resistência às políticas austeras implementadas pela Casa Rosada desde o ano passado.
No ato realizado na Praça de Maio lotada, líderes sindicais e estudantis ressaltaram que proteger as universidades públicas transcende o ambiente acadêmico e se converteu em uma causa nacional. “Atacar os sonhos de milhares é algo muito pesado”, declarou Joaquín Carvalho, presidente da Federação Universitária Argentina (FUA).
A manifestação recebeu apoio também dos setores oposicionistas peronistas e movimentos sociais. O deputado Máximo Kirchner criticou aqueles que “celebraram o início do governo Milei” mas agora demonstram “uma preocupação cínica com a educação pública”.
Por sua vez, Sérgio Massa — ex-ministro e ex-candidato à presidência — usou as redes sociais para afirmar que “o país idealizado só pode ser construído com mais educação e ciência”.
No encerramento da mobilização, representantes universitários prometeram manter pressão nas ruas caso o governo continue ignorando a Lei de Financiamento Universitário. Para eles, parece claro que o objetivo do governo Milei é sufocar financeiramente as universidades públicas até provocar seu esvaziamento gradual.

