Nesta terça-feira (14), os senadores do Partido Democrata dos Estados Unidos impediram o avanço da Lei de Autorização da Defesa Nacional (NDAA) para o exercício fiscal de 2027. A proposta, que contempla uma autorização de gastos anuais em torno de US$ 1 trilhão (aproximadamente R$ 5,15 trilhões) para o Departamento de Defesa, foi rejeitada com uma votação que registrou 50 votos a favor e 46 contra, ficando aquém dos 60 votos necessários para sua continuidade.
Essa decisão marca uma derrota significativa para a histórica aprovação bipartidária da NDAA e ocorre em um contexto de intensificação dos bombardeios americanos no Irã, que já se estende por cinco meses. O líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, expressou sua oposição ao projeto e orientou sua bancada a votar contra. “Não podemos permitir que a NDAA sirva como um aval para a imprudência que observamos no Irã. Donald Trump não pode envolver os cidadãos americanos em uma guerra sem justificativas claras ou um plano de encerramento. Ele não pode simplesmente exigir que o Congresso ignore essa situação”, declarou Schumer durante a sessão.
O senador criticou severamente a falta de autorização do Congresso para as ações militares e apontou a ausência de uma estratégia ou plano de saída por parte da administração. “O presidente está conduzindo uma guerra não autorizada, desafiando as maiorias bipartidárias no Congresso e se negando a informar o povo americano sobre custos, objetivos ou possíveis desfechos. […] Sou um forte ‘não’ à NDAA”, enfatizou.
Notificação oficial sobre hostilidades
A votação ocorreu um dia após o presidente Donald Trump ter enviado uma notificação formal ao Congresso sobre o recomeço das hostilidades. Em uma carta datada de 10 de julho de 2026, Trump afirmou que as forças americanas realizaram “ações militares defensivas contra alvos dentro do Irã” desde 7 de julho, em resposta a violações do cessar-fogo anterior.
No documento, é mencionado que as tropas dos EUA “continuam posicionadas para tomar novas ações, conforme necessário e apropriado”, visando fazer com que o Irã “deixe de ser uma ameaça”. Esta notificação ativa o prazo de 60 dias estipulado pela War Powers Resolution, permitindo operações militares sem autorização do Congresso durante esse intervalo.
A fragilidade do cessar-fogo estabelecido em abril ficou evidente após novos ataques, incluindo incidentes no Estreito de Ormuz que impactam o comércio global com petróleo e pressionam os preços dos combustíveis.
Republicanos sustentam apoio à proposta; silêncio de Trump persiste
Até agora, Donald Trump não se pronunciou publicamente sobre a rejeição da NDAA. A Casa Branca continua expressando sua posição através da notificação enviada ao Congresso e na defesa do aumento nos gastos militares.
No Senado, o líder da maioria republicana, John Thune, fez uma defesa vigorosa pela aprovação da proposta antes da votação, alegando que é responsabilidade do Congresso assegurar recursos necessários às Forças Armadas para cumprir suas missões. Após a derrota, Thune alterou seu voto por meio de uma manobra regimental, possibilitando que o texto seja retomado futuramente.
A oposição dos democratas à guerra também se estende ao considerável aumento nos gastos com defesa solicitado pela administração, que busca elevar o orçamento do Pentágono para cerca de US$ 1,5 trilhão em 2027, frente aos aproximadamente US$ 900 bilhões do ano anterior.
Ponto fora da curva para um projeto tradicionalmente aprovado
A NDAA é normalmente aprovada anualmente com amplo apoio bipartidário, pois estabelece prioridades orçamentárias e autoriza recursos para equipamentos, operações e remunerações militares. A rejeição ocorrida nesta terça-feira reflete as crescentes tensões entre os poderes Executivo e Legislativo dos EUA quanto à gestão da guerra no Irã e às dimensões do complexo militar-industrial.
Schumer destacou que nos últimos meses o Congresso já havia aprovado mais de dez propostas destinadas a limitar os poderes presidenciais em relação à guerra; contudo, nenhuma delas avançou devido à resistência dos republicanos.
Ainda há tramitação pendente sobre a matéria no Senado. Analistas apontam também para as implicações econômicas globais decorrentes do conflito, especialmente sobre a instabilidade nos preços do petróleo e os efeitos sobre países importadores como o Brasil.

