Antes mesmo de seu lançamento, Dark Horse, a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), já se destaca como uma das produções mais dispendiosas e polêmicas do cinema brasileiro. Criado como uma ferramenta de propaganda para a extrema direita no país, o filme é envolto em alegações de financiamento irregular, suspeitas de lavagem de dinheiro e denúncias de violações trabalhistas.
Na última sexta-feira (15), diversos meios de comunicação, incluindo o Portal Vermelho, tiveram acesso ao roteiro de Dark Horse, elaborado em inglês pelo ator e deputado federal Mario Frias (PL-SP), que foi secretário de Cultura durante o governo Bolsonaro. O texto, que não se configura como um registro documental, apresenta-se como uma ficção carregada de propaganda política, distorcendo fatos históricos e suavizando a trajetória do ex-mandatário. Frias ignora sistematicamente os crimes atribuídos a Bolsonaro, enquanto, sem evidências concretas, sugere que terceiros foram responsáveis pelo atentado sofrido pelo político em 2018, em Juiz de Fora (MG).
A proposta de glorificar um político que foi condenado a mais de 27 anos por tentativa de golpe já era controversa, e as 107 páginas do roteiro acentuam o caráter manipulador da produção. O longa busca reabilitar a imagem pública de Bolsonaro através da construção de uma narrativa heroica, vitimização messiânica e criação de inimigos conspiradores.
O enredo é dividido em três atos principais: inicialmente, Bolsonaro é apresentado como um outsider perseguido pela mídia e um modelo exemplar de marido e pai. Em seguida, o atentado é retratado como um ritual martirizador. No clímax da história, uma conspiração envolvendo traficantes e opositores tenta assassiná-lo no hospital – mas ele sobrevive por “milagre” e conquista a presidência.
A narrativa se transforma em um thriller político que mescla fatos amplamente conhecidos com fantasias paranoicas e apelos emocionais. A facada recebida por Bolsonaro assume o papel central da trama, sendo transformada numa espécie de “paixão bolsonarista”.
O mártir improvável
O roteiro alterna entre dois registros: a jornada clássica do herói no estilo hollywoodiano e elementos do martirológio cristão. Desde o início, um talk show apresenta Bolsonaro como um “dark horse” – ou azarão – na política brasileira, contrapondo-o ao sistema corrupto representado pela esquerda.
No filme, Bolsonaro é reduzido à figura de “Jair”, um político espontâneo que se diz próximo ao “povo comum” e alheio às opiniões da mídia. Durante um flashback situado em 1985, ele se confronta com um traficante conhecido como “Cicatriz”, tentando estabelecer sua imagem como militar destemido desde jovem – algo que carece de respaldo na realidade.
A dimensão familiar também é enfatizada no roteiro. O ex-presidente é mostrado ao lado da esposa e dos filhos – especialmente da caçula Laura – em cenas afetuosas repletas de música e celebrações populares. Longe das câmeras, ele aparece como um homem simples e religioso.
Diferente da imagem pública associada a declarações agressivas e autoritárias, o Bolsonaro fictício frequentemente exibe um sorriso carismático. Quando questionado sobre ofensas dirigidas à comunidade LGBTQIA+, ele responde: “Muitas pessoas usam essa linguagem. Vou tentar moderar meu jeito”. Comentários polêmicos feitos sobre a deputada Gloria são apresentados sem contexto crítico durante diálogos onde ela demonstra agressividade.
A ideia de predestinação messiânica permeia várias passagens do roteiro. Em uma cena significativa, uma figura enigmática chamada Dolores se aproxima dele em um restaurante e afirma: “Deus me enviou. Uma febre está chegando”. Ela lhe entrega pílulas “milagrosas” antes de desaparecer como um espectro. Essa cena remete à anunciação bíblica e sugere que Bolsonaro é visto como escolhido divino prestes a enfrentar grandes desafios.
Esse tom religioso se repete ao longo do filme. Antes da viagem para Juiz de Fora, Michelle persuade Bolsonaro a ajoelhar-se para rezar. O atentado se transforma numa paixão secular: ele é carregado pela multidão em uma referência à crucificação enquanto “segura suas próprias entranhas” durante o percurso ao hospital.
No hospital, Carlos Bolsonaro observa obras famosas como La Pietà e A Ressurreição de Lázaro, referências religiosas explícitas. Sua sobrevivência marca um ponto crucial na narrativa; mesmo gravemente ferido, ele obstina-se a viver. Tomando os antibióticos dados por Dolores, ele sobrevive por um “milagre”, sugerindo uma intervenção divina.
Depois da cirurgia, quando se levanta pela primeira vez, essa cena é descrita como “o primeiro passo do homem na lua”. Dolores reaparece para reafirmar seu status messiânico: “Deus te poupou para a nação”.
Inimigos do mito
A construção dos antagonistas também revela muito sobre o filme. A mídia é retratada como manipuladora e moralmente corrompida; Lara Clarke é apresentada como uma jornalista atraente e crítica incisiva que representa essa caricatura.
Em várias passagens do roteiro, ela manifesta desprezo explícito por Bolsonaro; em determinado momento chega até a celebrar sua facada com comentários desdenhosos: “Fuck Bolsonaro. He brought it on himself” (“Que se dane o Bolsonaro. Ele mesmo provocou isso”).
A jornalista ainda divulga falsamente sua morte após receber uma foto secreta tirada por alguém infiltrado no hospital. Em contrapartida, vídeos mostrando que Bolsonaro está vivo rapidamente circulam entre seus apoiadores que passam a chamá-lo de “Mito”.
Simultaneamente, o filme liga os opositores à esquerda à violência política e terrorismo. Segundo Bolsonaro no enredo: “a esquerda controla a mídia”, manipula pesquisas eleitorais e ameaça o País. Ele ainda menciona “globalistas”, ambientalistas e até mesmo “pedófilos em Hollywood” como parte dessa suposta conspiração contra o Brasil – transformando teorias conspiratórias frequentemente propagadas pelo bolsonarismo em elementos centrais da trama.
A interpretação do atentado também segue uma linha altamente manipulativa; o agressor rebatizado como “Aurelio Barba” não aparece apenas como autor solitário da facada; um antagonista maior emerge na figura de Paulo Pontes – “Cicatriz”, traficante que teria sido enfrentado por Bolsonaro anos antes.
Pontes é descrito como ex-marxista que passa por cirurgias plásticas em Cuba antes de se tornar barão das drogas graças à “cooperação estatal”. Essa caracterização não tem fundamento nos fatos conhecidos sobre as investigações relacionadas ao atentado; seu papel dramático visa atribuir à esquerda a responsabilidade pelo crime.
Tato, um dos capangas envolvidos na trama criminosa, contrata Aurelio Barba para assassinar Bolsonaro; este último é retratado como militante radical disposto a participar do ataque por dinheiro. Ao discutir a defesa baseada na tese de insanidade utilizada por Barba após o ataque, o roteiro sugere uma farsa orquestrada pelos advogados vinculados a Paulo Pontes para encobrir os reais responsáveis pelo crime.
Nenhuma evidência concreta apoia qualquer alegação sobre financiamento do PT ou grupos esquerdistas relacionados ao ataque; Adélio Bispo foi identificado pela investigação oficial como autor solitário devido a transtornos mentais que tornaram seu julgamento improcedente. Ao apresentar outra versão fictícia dos acontecimentos cinematográficos desse caso real sem assumir responsabilidades probatórias adequadas, o filme alimenta teorias conspiratórias infundadas.
Cabe ressaltar que obras cinematográficas têm liberdade criativa para elaborar narrativas distintas; entretanto, Dark Horse ultrapassa esses limites ao imputar ações criminosas reais – jornalistas, juízes ou adversários políticos – sem fundamentação probatória adequada.
A omissão também desempenha papel crucial nesta produção; quase não são mencionadas as declarações polêmicas defendendo torturadores durante a ditadura militar ou os ataques diretos ao sistema eleitoral feitos por Bolsonaro ao longo dos anos – assim como as ameaças direcionadas ao STF ou os eventos relacionados aos atos golpistas ocorridos no dia 8 de janeiro.
Dessa forma resulta um personagem quase inteiramente purificado: visto apenas como perseguido pelo sistema corrupto – patriótico e espontâneo – numa narrativa martirizadora desenhada para mobilizar emocionalmente sua base fiel enquanto busca reconstituir uma memória épica referente aos acontecimentos políticos marcantes desde 2018.
A conspiração como roteiro
A produção reforça pilares fundamentais da identidade bolsonarista: perpetuação da ideia persecutória contínua contra figuras públicas adversárias ao governo anterior; promoção do mito do outsider antissistema; desconfiança generalizada quanto à imprensa tradicional bem como instituições democráticas existentes atualmente; além da associação fundamental entre Jair Bolsonaro e uma missão espiritual superior dentro deste contexto fictício.
No final da história contada no longa-metragem , Paulo Pontes tenta novamente assassinar Bolsonaro dentro do hospital onde ele estava internado mandando capangas armados que eventualmente são mortos pela polícia local; enquanto isso nosso protagonista consegue vencer as eleições subsequentes após ter sido inocentado Aurelio Barba pelas alegações apresentadas anteriormente acerca sua insanidade mental num suposto conluio envolvendo membros do Judiciário brasileiro .
A cena final mostra imagens televisivas com cerimônias relacionadas à posse presidencial sendo exibidas na TV localizada no escritório pertencente aos planos malignos arquitetados por Paulo Pontes permitindo vislumbrarmos ainda mais características ligadas aos poderes ocultos atuantes nessa narrativa ficcionalizada durante todo esse processo dramatúrgico .
No entanto , mesmo com essa carga dramatúrgica , acaba sendo utilizado também artifícios ficcionais permitindo interpretações variadas especialmente quando observamos personagens secundários tais quais Lara Clarke cuja trajetória evolui gradualmente ; inicialmente hostil aos ideais bolsonaristas mas terminando redimida após impedir outro atentado contra seu protagonista central dessa história complexa focando assim num arco narrativo onde propõe reflexão acerca preconceitos existentes nas relações sociais atuais .
Dark Horse surgiu portanto não só enquanto entretenimento mas sim enquanto estratégia simbólica visando reorganizar posturas ideológicas dentro esfera pública nacional pós derrotas eleitorais recentes ; buscando contestar veracidade histórica consolidando narrativas favoráveis através ferramentas cinematográficas utilizando melodrama religioso misturando elementos conspiratórios distintos afim consolidar imagem positiva junto público alvo definido anteriormente .
O filme e o escândalo
A princípio , os produtores tinham intenção clara quanto lançamento antecipado visando proximidade eleitoral programada para 2026 ; entretanto revelações feitas esta semana podem acelerar estreia prevista inicialmente . No dia 13 deste mês , informações divulgadas apontaram articulações diretas realizadas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) junto banqueiro Daniel Vorcaro obtendo financiamento expressivo estimado R$134 milhões destinando maior orçamento já registrado cinema nacional até aqui .
Dono histórico Banco Master , Vorcaro foi detido quando tentava deixar território brasileiro durante investigação relacionada fraudes bilionárias causadoras prejuízo significativo Fundo Garantidor Crédito ; essa associação direta entre filho ex-presidente Jair Bolsonario levando Dark Horse a figurar centro escândalos nacionais correntes atualmente .
Surgimento vazamento relacionado roteiro pode ser visto tentativa deslocamento debate oriundo páginas policiais editoriais culturais oferecendo visibilidade maior além fragmentos previamente divulgados somente trechos isolados filmagens mantidos sob sigilo absoluto até então . Agora portanto , Dark Horse Pode finalmente ser analisado sob perspectiva crítica necessária trazendo reflexões pertinentes acerca sua própria essência artística enquanto peça publicitária revestida omissões propositalmente selecionadas visando absolvição simbólica condenados processos judiciais enfrentados anteriormente pelo ex-mandatário brasileiro .
Cinema nacional sempre produziu obras ideológicas divergentes porém raramente chegou ponto onde sua função principal seria reorganização memória coletiva contemporânea utilizando farta carga fantasia conspiratória aliada financiamentos duvidosos desconsiderando fatos fundamentais presentes neste contexto específico atual enfrentamos juntos nesta sociedade marcada polarizações intensificadas cada vez mais frequentes .

