Na madrugada de sexta-feira (15), o Brasil perdeu um importante nome do jornalismo e da cultura: Vladimir Sacchetta faleceu em São Paulo, aos 75 anos, após sofrer um mal súbito enquanto dormia.
Segundo sua filha, a documentarista Paula Sacchetta, o velório está agendado para a manhã deste sábado (16) no Galpão Cultural Elza Soares, pertencente ao MST. Após a cerimônia, o corpo será encaminhado ao Crematório da Vila Alpina.
Vladimir era filho de Hermínio Sacchetta, um proeminente jornalista e militante socialista. Desde jovem, ele foi cercado por intelectuais e ativistas, dedicando sua vida à preservação da memória cultural e política do Brasil. Seu nome é uma homenagem ao líder da Revolução Russa, Vladimir Lenin.
O ex-deputado Jamil Murad, dirigente do PCdoB, expressou sua tristeza pela perda do amigo: “Perdi um querido amigo com quem compartilhei muitas lutas políticas e sociais progressistas em São Paulo. Sacchetta foi um intelectual extraordinário e um ativista comprometido, sempre lutando pelas ideias socialistas.”
Formação e Trajetória
Vladimir possuía diplomas em Direito pela Universidade de São Paulo e em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. No entanto, suas práticas mais significativas ocorreram nas redações e arquivos onde atuou, solidificando seu papel como um ícone na preservação da memória histórica.
Contribuições para a Memória Brasileira
A carreira de Sacchetta começou na Editora Abril como editor de coleções em fascículos. Naquela época, no final da década de 1970, ele coordenou a pesquisa da coleção Nosso Século, que se tornou uma referência na recuperação visual e documental da história do Brasil republicano. Ele também fez parte do projeto Retrato do Brasil, sob a liderança do jornalista Raimundo Pereira.
Mais tarde, sua visão crítica o levou a ser responsável pela pesquisa e edição de imagens da coleção sobre a ditadura militar do jornalista Elio Gaspari. Na esfera pública, ele coordenou a edição de “Brasil Direitos Humanos: 2008, a Realidade do País aos 60 Anos da Declaração Universal”, publicada pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Este trabalho ajudou a posicionar o Brasil dentro do debate internacional sobre direitos humanos.
No Instituto Vladimir Herzog (IVH), Sacchetta foi coautor dos volumes As Capas Desta História e Os Cartazes Desta História, este último também organizando. Ambos os trabalhos foram essenciais para resgatar a memória da resistência democrática através da imprensa alternativa e seus repertórios visuais, preservando registros que enfrentaram censura e repressão política.
<p“O falecimento de Vladimir Sacchetta representa uma grande perda para a memória da resistência democrática no Brasil”, destacou o Instituto Vladimir Herzog em comunicado. “Sua contribuição para organização de arquivos, edição de imagens e formação de novas gerações de jornalistas é inestimável.”
Pesquisa Cultural e Folclore
Dentre suas diversas atividades voltadas à memória histórica, Vladimir também se envolveu com pesquisas culturais e folclóricas brasileiras. Ele foi biógrafo de Monteiro Lobato ao lado da historiadora Marcia Camargos – com quem compartilhou tanto a vida pessoal quanto profissional – além de ter fundado em 2003 a Sosaci (Sociedade dos Observadores do Saci). Seu livro Monteiro Lobato – Furacão na Botocúndia conquistou o Prêmio Jabuti na categoria Não Ficção em 1998.
Em um artigo escrito para a Folha de S.Paulo, Marcia e Vladimir argumentaram com ironia que valorizar o saci era mais relevante do que celebrar o Dia das Bruxas: “Num mundo globalizado, ridículo não é acreditar no saci e tudo que ele representa. O lamentável é se vestir como bruxa numa atitude subserviente ao colonialismo.”
A jornalista Carolina Maria Ruy recordou com emoção seus primeiros encontros com Sacchetta no Departamento de Documentação da Editora Abril (Dedoc). Ela descreveu Vladimir como sempre amigável: “Ele era amigo do meu pai. Quando eu ia à Abril visitar meu pai, encontrava-o algumas vezes no arquivo. Naquela época não percebia sua importância para o jornalismo brasileiro.”
A generosidade de Vladimir ao compartilhar imagens raras para projetos relacionados à memória ficou marcada na lembrança de Carolina, que ressaltou seu apoio à Juventude Comunista nos anos 2000: “Ele tinha muitos amigos no PCdoB e era muito inteligente, sempre bem-humorado e cheio de histórias sobre seu pai.”
No fim dos seus dias, Sacchetta atuava como diretor na Porviroscópio Projetos e Conteúdos, uma empresa dedicada à consultoria editorial e produção cultural. Sua obra é um legado construído por meio das imagens recuperadas, arquivos organizados e histórias preservadas que não se perderão no tempo. Como enfatizou o Instituto Vladimir Herzog, ele via a preservação da memória como uma forma vital de resistência.

