Na última quinta-feira, 30 de abril, a Editora de Cultura lançou o livro Quem tem medo da China? A construção da ameaça chinesa, escrito pelos pesquisadores Diego Pautasso e Isis Paris Maia. A obra oferece uma análise crítica e fundamentada historicamente sobre a forma como a China se tornou o foco das narrativas de ameaça no contexto internacional.
Com uma linguagem que é ao mesmo tempo acessível e analítica, o livro examina um vocabulário que foi criado para demonizar a ascensão da China. Termos como “autoritarismo”, “armadilha da dívida”, “violações de direitos humanos” e “neoimperialismo” são explorados como instrumentos de um discurso que legitima as políticas de contenção promovidas pelos Estados Unidos e seus parceiros.
“A reconstituição histórica da chamada ‘ameaça chinesa’ revela velhos fantasmas do imaginário ocidental. Do racismo colonial do ‘perigo amarelo’ ao anticomunismo do ‘perigo vermelho’, esses repertórios foram sendo reciclados e adaptados para interpretar o lugar da China no mundo contemporâneo.” – trecho da contra-capa do livro.
Investigando eventos recentes — desde o chamado Pivô da Ásia até a guerra comercial e tecnológica, além da formação de uma nova Guerra Fria —, os autores argumentam que a noção de “ameaça chinesa” não é um fato objetivo, mas sim uma construção histórica. Essa narrativa se consolidou como política oficial dos Estados Unidos a partir de 2011, durante a administração Obama, influenciando diversas iniciativas, incluindo cercos tecnológicos e alianças militares como o Quad.
No atual cenário de transições sistêmicas, essa retórica reflete tanto uma persistência imperial quanto as crescentes disfunções internas do poder americano. Ao contrastar a ameaça fabricada com a reconfiguração da imagem chinesa, o livro convida os leitores a entenderem o caminho único de desenvolvimento e inserção internacional que a China tem seguido, assim como os novos horizontes do socialismo do século XXI que emergem dessa trajetória.
Diego Pautasso e Isis Paris Maia também são idealizadores do projeto de disseminação científica Fios de China, disponível no Instagram, além de integrarem o Centro de Estudos Avançados Brasil-China (CEBRACh).
Em uma conversa com o Portal Vermelho durante o lançamento do livro, Diego Pautasso aprofundou os conceitos principais abordados na obra: quem fomenta o medo em relação à China, como diferenciar críticas legítimas de discursos geopolíticos e qual é o erro mais significativo cometido pelo Ocidente ao tentar compreender esse gigante asiático. Confira a entrevista abaixo.
O título do livro questiona: “Quem tem medo da China?”. Quais são os principais responsáveis por alimentar esse temor atualmente e por quê?
A ideia da ameaça chinesa está claramente ligada aos Estados Unidos, que têm adotado políticas para conter esse país. Essa construção tem apoio de uma rede extensa de aliados internacionais, organizações e até setores conservadores em regiões como América Latina e África. Esse fenômeno resulta de um histórico complexo que inclui socializações ideológicas ligadas à colonização europeia inicial e posteriormente ao domínio americano ao longo do século XX.
No decorrer das suas pesquisas para o livro, quais aspectos surpreenderam vocês ao observar as acusações contra a China?
A maneira como a China é vilanizada através da criação de estereótipos é algo que vem se intensificando desde quando comecei minha pesquisa no início dos anos 2000, com Isis juntando-se depois em nosso trabalho nos últimos seis anos. Muitas narrativas foram forjadas nesse processo. Inicialmente, afirmava-se que o crescimento chinês estava ligado à exploração extrema da mão-de-obra e à produção barata. Com o tempo, novas críticas surgiram: a China foi rotulada como grande poluidora ou país autoritário associado à vigilância digital. À medida que se tornava mais assertiva globalmente, surgiram acusações sobre neoimperialismo e armadilhas financeiras. O intuito do nosso livro é esclarecer as origens dessas narrativas e seus efeitos distorcedores sobre nossa compreensão da realidade chinesa.
A obra discute a construção da “ameaça chinesa”. Até que ponto essa imagem é baseada em fatos reais ou é fruto de disputas políticas?
No texto mostramos que desde a expansão europeia até os Estados Unidos, as narrativas utilizadas para justificar ações imperiais sempre buscaram legitimidade. Exemplos incluem conceitos como “o fardo do homem branco” ou “o inimigo vermelho”. A construção ideológica voltada para deslegitimar a China se intensificou nas últimas duas décadas e se tornou parte das políticas públicas dos EUA após 2011 com o Pivô Asiático. Desde então, várias iniciativas americanas têm se alinhado com essa estratégia de contenção.
Vocês afirmam que existe uma tentativa deliberada de “vilanizar” a China. Como um leitor comum pode distinguir entre críticas justas e discursos alarmistas?
As narrativas negativas em relação à China fazem parte de uma estratégia maior para contê-la. Os Estados Unidos possuem controle significativo sobre as estruturas hegemônicas responsáveis pela produção dessas ideias — incluindo mídias, academias e cultura popular — reforçando sua liderança simbólica globalmente. Nosso objetivo é fornecer uma análise científica que ajude as pessoas a discernirem entre ideologias enganosas e as realidades complexas das relações internacionais atuais.
Para aqueles que estão começando a conhecer mais sobre a China, qual é o principal equívoco cometido pelo Ocidente na compreensão desse país?
Um dos pontos centrais que discutimos é como essa política americana de contenção cria uma caricatura distorcida da realidade chinesa. Ao rotular a China apenas como autoritária, muitos ignoram suas instituições sofisticadas e processos participativos efetivos. Essa simplificação prejudica um entendimento mais profundo sobre as razões por trás do sucesso chinês.
Por fim: Após todo esse processo até o lançamento do livro, qual reflexão vocês esperam provocar nos leitores ao lerem “Quem tem medo da China?” pela primeira vez?
A intenção primordial é demonstrar que essas narrativas têm raízes históricas específicas com propósitos políticos claros. É fundamental reconhecer os riscos associados à falta de compreensão não apenas sobre a ascensão chinesa mas também sobre as transformações sistêmicas correlacionadas a ela. O mundo está passando por mudanças significativas impulsionadas pela ascensão da China; ignorá-las pode resultar em consequências sérias para nosso entendimento das dinâmicas globais atuais.
Sobre os autores
Diego Pautasso possui doutorado e mestrado em Ciência Política pela UFRGS, atua como professor titular na Rede Federal e ocupa o cargo de diretor de pesquisas no CEBRACh. É autor do livro Imperialismo: ainda faz sentido na era da globalização?, entre outros trabalhos.
Isis Paris Maia é historiadora com mestrado e doutorado em Políticas Públicas pela UFRGS. É professora colaboradora no programa de Pós-Graduação em China Contemporânea na PUC-Minas e pesquisa governança digital na China.
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