Um grupo de três senadores dos Estados Unidos acusou a administração de Donald Trump de implementar uma estratégia de interferência e desestabilização no Brasil, visando apoiar Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais.
Em uma comunicação dirigida ao secretário de Estado, Marco Rubio, os legisladores exigem que o governo americano reconheça o resultado das eleições brasileiras, independentemente do candidato que for eleito.
A carta foi assinada pelos senadores democratas Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch. Esta ação intensifica a pressão sobre a administração americana, a poucos dias do primeiro turno das eleições, agendado para domingo (4).
Os senadores expressam em sua missiva: “Ao invés de apoiar a defesa da democracia no Brasil, os Estados Unidos estão utilizando pressões diplomáticas, econômicas e políticas que podem comprometer as instituições democráticas do país, minar a confiança no processo eleitoral e prejudicar ainda mais as relações com um parceiro comercial e aliado estratégico”.
Além disso, questionam se o governo Trump “se comprometerá a reconhecer os resultados das eleições democráticas de 2026 no Brasil” e se manterá relações diplomáticas normais com qualquer candidato “que seja livremente escolhido pelo povo brasileiro”.
Essa é a segunda carta enviada por representantes do Congresso a Rubio em um intervalo inferior a uma semana.
No dia 24 de agosto, 31 membros do Congresso, liderados pela deputada Delia Ramirez e incluindo o senador Bernie Sanders, já haviam denunciado a ingerência dos EUA e solicitado uma resposta do Departamento de Estado até quinta-feira (1º).
Pressão para favorecer Flávio
No novo comunicado, os senadores afirmam que desde o início do segundo mandato de Trump, autoridades americanas têm promovido uma “campanha de interferência e desestabilização no Brasil”.
Conforme os parlamentares, essa ofensiva se intensificou em 2025, quando Washington impôs tarifas e sanções na tentativa de influenciar o julgamento de Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF).
O ex-presidente foi condenado a mais de 27 anos de prisão por seu papel na tentativa de golpe destinada a evitar a posse de Lula após sua derrota nas eleições de 2022.
Para os senadores, a preferência da Casa Branca na atual corrida eleitoral ficou evidente com o encontro entre Flávio Bolsonaro e Trump no Salão Oval em maio. A reunião ocorreu enquanto Flávio tentava lidar com as repercussões do escândalo envolvendo o banco Master.
A carta menciona: “A recente reunião entre o senador Flávio Bolsonaro e o presidente Trump no Salão Oval demonstra a disposição da Administração em intervir no processo eleitoral”.
Após esse encontro, os Estados Unidos classificaram o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Essa decisão foi criticada por Lula, que rejeitou qualquer justificativa que Washington apresentasse para violar a soberania nacional sob o pretexto de combater o crime organizado.
Os senadores também fazem referência às tarifas de 25% impostas aos produtos brasileiros e às sanções direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes. Trump associou publicamente essas retaliações ao processo judicial contra Jair Bolsonaro.
Do reconhecimento de Lula à ofensiva de Trump
A atual postura da administração americana contrasta fortemente com as ações dos Estados Unidos após as eleições brasileiras em 2022. Naquele momento, Washington reconheceu prontamente a vitória de Lula e ajudou a neutralizar tentativas bolsonaristas de contestar o resultado.
Após os ataques ocorridos em 8 de janeiro de 2023, os EUA também manifestaram apoio ao novo presidente e participaram da articulação regional para defender as instituições brasileiras.
Os senadores afirmam: “O contraste entre a atuação dos Estados Unidos durante as eleições anteriores no Brasil é bastante evidente”.
Neste momento, avaliam que Trump repete uma política aplicada em outros países da América Latina. “Esse padrão ameaça não apenas comprometer a integridade dos processos eleitorais em países específicos, mas também erodir progressivamente a confiança pública nas instituições democráticas em toda a região”, alertam.
Supremacista branco comanda ofensiva
A carta destaca Darren Beattie, assessor sênior do Departamento de Estado para o Hemisfério Ocidental, como um dos principais responsáveis pela ofensiva contra o Brasil. Os senadores descrevem-no como “um conhecido extremista direitista e supremacista branco”.
Beattie atuou como redator-chefe durante o primeiro mandato de Trump até ser demitido em 2018 após revelações sobre sua participação em eventos relacionados ao nacionalismo branco.
Pós-demissão, ele fundou o site Revolver News, onde disseminou informações falsas e teorias conspiratórias sobre os eventos ocorridos no Capitólio em 6 de janeiro de 2021.
No entanto, retornou ao Departamento de Estado em fevereiro sem passar por audiência no Senado. Para os três parlamentares que assinam a carta, suas declarações revelam “um compromisso ideológico claro para minar as instituições democráticas do Brasil e promover interesses da extrema direita brasileira”.
Em março deste ano, o governo brasileiro negou visto para Beattie devido ao fato dele ter omitido ou apresentado informações falsas sobre sua viagem. Ele alegou interesse em participar de um evento relacionado a terras raras mas tinha planos reais para visitar Jair Bolsonaro.

