“Se os trabalhadores eram submetidos à exploração e opressão, as mulheres enfrentavam uma realidade ainda mais severa, em uma escala cem vezes maior.” Esta citação de Inessa Armand, datada de 1920, resume uma das questões principais do feminismo socialista no início do século XX: a intersecção entre a emancipação feminina, o trabalho e a luta de classes. Mais de um século depois, a figura de Inessa retorna às discussões contemporâneas com o lançamento no Brasil do livro “Revolucionária, Feminista e Amante de Lênin”, escrito pela jornalista italiana Ritanna Armeni.
Com lançamento pela Editora Cultrix, a obra tem como objetivo traçar a trajetória política e intelectual de Inessa Armand, frequentemente reduzida nas narrativas históricas à sua relação pessoal com Vladimir Lênin. A autora defende que Inessa desempenhou um papel crucial nos debates sobre a emancipação das mulheres, a educação, a moral socialista e a organização feminina dentro do movimento bolchevique.
Correspondências revelam aliança política entre Inessa Armand e Lênin
Inessa Armand nasceu na França e passou parte da sua infância em Moscou. Desde jovem, ela se integrou ao movimento socialista russo, tornando-se membro ativo do Partido Operário Social-Democrata Russo. Engajada na clandestina organização bolchevique, ela escreveu sobre as condições das mulheres trabalhadoras e participou ativamente dos debates políticos que antecederam a Revolução de Outubro de 1917.
A conexão com Lênin se fortaleceu durante o exílio político deles na Europa, que teve início em 1909. Segundo Ritanna Armeni, além do vínculo afetivo entre eles, havia um intenso intercâmbio de ideias políticas. O livro compila cartas e relatos históricos que evidenciam a contribuição de Inessa em discussões sobre estrutura partidária, educação e direitos femininos.
Uma geração de revolucionárias
A trajetória de Inessa está intimamente ligada a uma geração de mulheres socialistas que transformaram o debate sobre a “questão feminina” em uma prioridade dentro do movimento revolucionário do início do século XX. Nomes como Clara Zetkin, Alexandra Kollontai e Nadezhda Krupskaya se destacaram por suas contribuições à organização política das mulheres operárias e à formulação do feminismo socialista.
Clara Zetkin teve um papel fundamental na formação internacional das mulheres socialistas e foi responsável pela proposta da criação do Dia Internacional da Mulher durante a Conferência Internacional das Mulheres Socialistas realizada em Copenhague em 1910. Nadezhda Krupskaya destacou-se por seus esforços na alfabetização dos operários e na mobilização das mulheres trabalhadoras durante o período revolucionário na Rússia. Já Alexandra Kollontai aprofundou as discussões acerca do trabalho não remunerado, maternidade, sexualidade e autonomia feminina, defendendo políticas públicas voltadas para a socialização das responsabilidades domésticas e para garantir independência econômica às mulheres.
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Essas revolucionárias compartilhavam o entendimento de que a emancipação feminina não deveria restringir-se ao sucesso individual. Questões como exploração no trabalho feminino, dependência econômica, participação política das mulheres e o peso excessivo do trabalho doméstico tornaram-se centrais nas propostas do feminismo socialista.
Feminismo, trabalho e transformação social
Cem anos após os debates promovidos por figuras como Inessa Armand, Alexandra Kollontai e Clara Zetkin, problemas como o trabalho doméstico não remunerado, desigualdade salarial, feminização da pobreza e sobrecarga na prestação de cuidados continuam impactando milhões de mulheres trabalhadoras. A retomada dessas discussões oferece uma nova perspectiva sobre o crescente interesse pelas experiências ligadas ao feminismo socialista e emancipacionista.
Nesse contexto atual, o livro de Ritanna Armeni também reabre o debate sobre diferentes perspectivas acerca da emancipação feminina. Enquanto algumas correntes do feminismo liberal focam principalmente na expansão da representação feminina em espaços institucionais e corporativos, as tradições dos revolucionários socialistas buscavam conectar a liberdade das mulheres à transformação das condições materiais de vida e ao enfrentamento das desigualdades geradas pelo capitalismo, patriarcado e divisão sexual do trabalho.
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No decorrer do século XX, o feminismo emancipacionista cultivado por comunistas e socialistas vinculou a luta das mulheres trabalhadoras aos debates sobre violência baseada no gênero, direitos reprodutivos, sexualidade, racismo estrutural e outras opressões que afetam especialmente as mulheres negras, periféricas e pobres. Ao invés de dissociar essas questões da luta social mais ampla, essa corrente buscou integrá-las ao combate contra as estruturas de exploração presentes na sociedade capitalista.
A obra de Ritanna Armeni vai além da simples reinterpretação de uma figura histórica; ela contribui para recuperar uma tradição política forjada por mulheres revolucionárias que entenderam a emancipação feminina como algo além da igualdade formal — como parte essencial da luta por transformação social e pela autonomia das trabalhadoras diante das diversas formas de exploração e opressão.
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