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A voz do poder: O Globo se opõe à ampliação dos direitos trabalhistas

Recife CotidianoRecife Cotidianoabril 30, 2026 743 Minutes read0

No último domingo, o jornal O Globo surpreendeu a todos ao publicar um editorial que classifica a proposta de redução da carga horária de trabalho, sem diminuição salarial e com o fim da escala 6×1, como “oportunismo populista”.

A história se repete. Em abril de 1962, por exemplo, o mesmo veículo estampou uma manchete que dizia: “Um 13º salário é considerado desastroso para o país”. Naquela ocasião, o texto defendia que essa conquista trabalhista, aprovada mais tarde por João Goulart, sobrecarregaria as empresas e geraria inflação. Atualmente, o 13º salário é visto como um direito fundamental.

O periódico pertencente à família Marinho nunca escondeu sua inclinação a favor das elites econômicas tanto brasileiras quanto internacionais, manifestando-se contra quaisquer avanços que beneficiem os trabalhadores.

Apito de cachorro

Recentemente, a postura crítica do Globo não se mostrou isolada. Durante o final de semana, outros veículos como O Estadão e a Folha de S.Paulo também se posicionaram contrariamente ao fim da escala 6×1, reafirmando os interesses patronais que representam.

Essa reação coordenada é lamentável. Assim como um cachorro que persegue seu próprio rabo, a lógica dos empregadores gira em círculos – produz muito barulho sem apresentar soluções viáveis.

Produtividade não nasce do cansaço

Os editoriais veiculados pela imprensa corporativa sustentam que essa mudança acarretará perda de produtividade e aumento no desemprego. No entanto, está provado que a produtividade não é fruto do desgaste excessivo. Um trabalhador exausto após seis dias de trabalho não apenas produz menos efetivamente como também está mais propenso a cometer erros e adoecer. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) possui pesquisas demonstrando que jornadas reduzidas costumam elevar a produtividade por hora trabalhada. Aqueles que advogam jornadas longas ignoram princípios econômicos e promovem a exploração.

A crítica de considerar a busca por um direito básico como o descanso digno como “oportunismo” é extremamente cínica. As propostas em discussão são resultado da luta histórica do movimento sindical pela diminuição da jornada de trabalho – em resposta às numerosas histórias reais de trabalhadores que adoecem, se afastam de suas famílias e falecem antes da aposentadoria. Existe um debate técnico sobre o tema; entretanto, ele não chega aos grandes jornais porque os especialistas consultados são geralmente contratados pelos empregadores.

Um dos argumentos frequentemente utilizados é o possível impacto negativo sobre pequenos empresários, apresentado nesse contexto como um escudo humano. Na realidade, a escala 6×1 já prejudica pequenos comerciantes que precisam competir com grandes redes que operam com escalas mais flexíveis e automação. Reduzir as horas trabalhadas pode equalizar as condições competitivas. Além disso, trabalhadores descansados tendem a consumir mais. Os pequenos negócios não falham devido à implementação de direitos trabalhistas – eles enfrentam dificuldades por falta de clientes e acesso ao crédito.

Atrás do próprio rabo

Os colunistas do Globo argumentam que deve haver um aumento na produtividade antes da redução da jornada de trabalho. Essa visão reflete uma lógica semelhante à do cão correndo atrás do próprio rabo: os patrões exigem maior produtividade para justificar uma jornada menor, mas só conseguem isso desgastando seus funcionários. É um ciclo vicioso que nunca se resolve – exceto se houver uma ruptura no status quo.

A trajetória histórica mostra que conquistas como o 13º salário, a jornada de 8 horas e a CLT só foram alcançadas através da luta organizada dos trabalhadores e nunca pela benevolência dos empregadores que lucram com a exploração.

Desatento às vozes dos trabalhadores, O Globo se mantém fiel aos interesses dos donos das empresas. Contudo, esses proprietários não enfrentam as realidades difíceis: eles não carregam caixas, não atendem clientes nos fins de semana e não chegam em casa exaustos no domingo. Eles ditam as regras – enquanto o jornal obedece à ordem estabelecida, correndo em círculos e repetindo previsões alarmantes que nunca se concretizam.

No final das contas, quem sofre com essa situação são os trabalhadores: é a mãe ausente na vida do filho, o jovem cuja saúde deteriora antes dos 30 anos. Para romper esse ciclo vicioso será necessário um ato corajoso – uma resistência real da classe trabalhadora contra suas limitações impostas.

Enquanto os cães continuam a latir, nossa luta avança. O fim da escala 6×1 já começa a se desenhar no horizonte.

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