Existem autores que criam personagens cativantes e outros que elaboram mundos extraordinários. No entanto, Benedito Ruy Barbosa realizou algo ainda mais singular: ensinou uma nação a refletir sobre si mesma.
Na manhã de terça-feira (7), o Brasil se despediu de um dos mais notáveis dramaturgos de sua história. Benedito Ruy Barbosa faleceu, aos 95 anos, em São Paulo, devido a complicações decorrentes de insuficiência renal crônica. Ele estava internado no Hospital do Coração (HCor), onde tratava a doença há vários anos.
O falecimento de Benedito não apenas marca o fim de uma das carreiras mais impactantes da televisão brasileira, mas também reabre discussões sobre as escolhas e os dilemas presentes em sua obra.
Poucos escritores conseguiram deixar uma impressão tão forte na memória coletiva como aquele que fez com que rios, terras cultivadas, fazendas e trabalhadores rurais se tornassem protagonistas nas telas do Brasil.
Um Brasil que não cabia na tela
Benedito nasceu em 1931, na cidade de Gália, interior de São Paulo. Desde a infância, ele incorporou à sua dramaturgia as experiências vividas: o aroma da terra molhada, o sabor do café, os sotaques regionais e as histórias de famílias imigrantes, bem como os conflitos pela propriedade da terra e a força dos trabalhadores rurais.
Suas novelas iam além dos enredos românticos.
Obras como Cabocla, Sinhá Moça, Pantanal, Renascer, O Rei do Gado, Terra Nostra, Esperança e Velho Chico abordavam temas como disputas por terras, escravidão, imigração, modernização agrícola e desigualdade social junto aos romances.
Ao contrário do que muitos pensavam ser apenas entretenimento, Benedito construiu verdadeiras epopeias sobre a formação do Brasil.
O autor que fez a natureza falar
Nunca apenas um cenário, a natureza em suas histórias tinha voz própria.
Os rios possuíam personalidades. As árvores eram portadoras de memórias. O Pantanal pulsava com seus personagens. A narrativa do Velho Chico parecia traçar o destino de gerações inteiras.
Muito antes que questões ambientais se tornassem centrais no debate público, Benedito já explorava a relação entre desenvolvimento econômico e a conservação dos biomas brasileiros.
Sua obra ajudou milhões de telespectadores urbanos a redescobrir um Brasil distante dos grandes centros urbanos, essencial para entender a própria identidade nacional.
Um autor com visões conservadoras
Ao lado do reconhecimento por seu talento artístico, Benedito Ruy Barbosa nunca escondeu suas opiniões políticas.
No final da vida, manifestou apoio ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, criticou o Partido dos Trabalhadores e expressou simpatia pela candidatura de Jair Bolsonaro em 2018. Defendia uma visão tradicional da família e mostrava reservas em relação a algumas pautas contemporâneas do feminismo. Sua declaração sobre “odiar histórias de bichas” gerou desconforto na Globo, mesmo com a segunda versão de Pantanal apresentando personagens gays.
Tais posições foram utilizadas por críticos para reinterpretar sua produção artística em um contexto marcado pelo crescente debate sobre representação e diversidade na televisão brasileira.
O Brasil profundo ganhou voz na televisão
Poucos autores conseguiram estabelecer um universo ficcional tão reconhecível quanto Benedito Ruy Barbosa.
Nessas novelas, o campo deixava de ser meramente um pano de fundo para se tornar parte ativa da trama. As paisagens moldavam os conflitos humanos; rios e florestas dialogavam com paixões intensas, disputas familiares e transformações econômicas.
Benedito introduziu ao horário nobre temas frequentemente ignorados na televisão comercial, como concentração fundiária e êxodo rural, além das tensões entre tradição e modernidade.
A idealização do Brasil rural era outra característica marcante em sua obra. Ele retratava o interior como um espaço moralmente puro em contraste com as corrupções urbanas. Essa representação poética escondia uma nostalgia por um Brasil idealizado — sem conflitos sociais ou raciais — onde os coronéis eram benevolentes e os camponeses satisfeitos com suas vidas simples.
A romantização desse ambiente rural servia para ofuscar profundas contradições: desde a violência contra trabalhadores rurais até a exploração diária enfrentada por lideranças camponesas. Em O Rei do Gado, por exemplo, o coronel Berdinazzi (interpretado por Antonio Fagundes) é retratado com simpatia apesar das práticas violentas associadas à concentração fundiária que ele representa.
Ainda assim, sua dramaturgia deixou marcas indeléveis nas gerações seguintes de roteiristas e estabeleceu uma identidade estética ímpar para a televisão brasileira.
Uma obra que também desperta leituras críticas
Ainda que amplamente celebradas pelo público, as novelas de Benedito Ruy Barbosa passaram também a ser alvo de análises que apontam limitações nas representações sociais presentes em suas obras.
Cientistas sociais e críticos notaram que personagens negros frequentemente ocupavam papéis secundários nas narrativas ambientadas em regiões com forte presença afro-brasileira. Além disso, personagens indígenas eram muitas vezes apresentados sob uma ótica espiritualizada ou idealizada.
Muitas análises revelam predominância de estruturas familiares tradicionais e papéis femininos frequentemente associados ao cuidado familiar ou ao romance; apesar disso, figuras como Juma Marruá emergiram como símbolos de força feminina na dramaturgia nacional.
Tais interpretações coexistem com avaliações que ressaltam a complexidade dos diversos personagens criados por ele e a relevância social das temáticas abordadas em suas novelas durante horários nobres da TV.
O campo entre poesia e realidade
A forma como Benedito retratava o Brasil rural é outro aspecto frequentemente discutido entre críticos.
Sua obra é elogiada pela criação de um imaginário poético sobre o interior brasileiro ao valorizar paisagens e modos de vida geralmente ausentes da programação televisiva convencional.
Contudo, parte da crítica argumenta que essa visão tendia a favorecer uma interpretação nostálgica do campo enquanto suavizava conflitos históricos relacionados à concentração fundiária e às desigualdades sociais existentes.
No entanto, defensores de sua dramaturgia afirmam que produções como O Rei do Gado trouxeram discussões inovadoras sobre reforma agrária e movimentos sociais à telinha, ampliando assim o debate público acerca dessas questões cruciais.
Um legado resistente às simplificações
A durabilidade da obra de Benedito Ruy Barbosa pode ser atribuída à sua capacidade de provocar diferentes interpretações.
Se por um lado ele é reconhecido como fundamental na transformação do Brasil rural em patrimônio cultural da dramaturgia nacional,
por outro lado sua produção continua sendo revisitada à luz das transformações culturais recentes.
Reconhecer seu impacto histórico não exclui uma revisão crítica dos aspectos presentes em sua visão. Da mesma forma,
apontar limitações nas representações não diminui sua contribuição para o panorama televisivo brasileiro.
Entre rios caudalosos, boiadas errantes e amores impossíveis,
Benedito construiu um Brasil profundamente impregnado pela memória afetiva de milhões.
Um país belo e poético que ainda aguarda debates abertos sobre quem é representado nas telas
e quais histórias ainda precisam ser contadas.
O último capítulo
Toda novela chega ao fim.
No entanto algumas permanecem vivas mesmo após exibirem seu último episódio.
Com o falecimento de Benedito Ruy Barbosa desaparece uma das últimas grandes vozes que assistiu à construção da televisão brasileira desde seus primórdios,
contribuindo para transformar as telenovelas em patrimônio cultural nacional.
Seus personagens continuam percorrendo estradas poeirentas,
conduzindo gados,pescando nos rios,
cultivando café,
sem nunca esquecer que o Brasil vai muito além das cidades.
Enquanto houver espectadores revendo Pantanal, emocionando-se com Renascer, debatendo O Rei do Gado, ou descobrindo as sutilezas de Meu Pedacinho de Chão,
Benedito continuará fazendo aquilo que soube fazer tão bem: contar histórias capazes de revelar este país aos próprios brasileiros.

