O grupo Casas Bahia protocolou um pedido de recuperação judicial no Foro Central Cível de São Paulo, visando a reestruturação de uma dívida total de R$ 17,3 bilhões. A informação foi divulgada pela empresa no último domingo (16), que justifica a ação devido à deterioração das suas condições financeiras em razão do “ambiente macroeconômico desafiador”, caracterizado por: “altas taxas de juros, restrição no crédito, aumento dos custos financeiros e pressão sobre o consumo e capital de giro”.
Amplamente reconhecida no Brasil por facilitar o acesso a móveis e eletrodomésticos para as classes mais baixas através de carnês, a empresa opera atualmente em 22 estados e no Distrito Federal. Sua rede contava com 1.100 lojas físicas localizadas em 515 municípios, mas essa realidade já passou por mudanças significativas.
No processo de recuperação, as Casas Bahia anunciaram que planejam demitir cerca de 3 mil funcionários, sendo que já foram realizadas 1.900 demissões. Além disso, neste mês de agosto, a companhia fechou 298 lojas como parte da estratégia para enfrentar a crise financeira.
Essas medidas se somam a um plano que teve início em 2023 e que já resultou no fechamento de 55 lojas adicionais e na eliminação de mais de 8 mil empregos. No ano seguinte, a empresa havia solicitado uma recuperação extrajudicial com dívidas totalizando R$ 4,1 bilhões. Na petição apresentada à Justiça paulista, as Casas Bahia afirmam que ainda operam com 700 lojas físicas e mantêm mais de 20 mil funcionários. O grupo também inclui marcas como Ponto Frio (com outras 117 lojas até junho), o site extra.com.br, o banco digital Casas Bahia Pay, além da indústria Móveis Bartira e serviços logísticos.
Leia mais: Sindicatos atuam para reverter demissões nas Casas Bahia
A Mapa Capital controla atualmente a empresa por meio da Domus VII Participações, detendo 82,11% das ações. Os descendentes do fundador Samuel Klein (1923-2014) têm participação minoritária na companhia. Tanto Samuel quanto seu filho Saul Klein enfrentaram acusações relacionadas a crimes sexuais. Saul foi condenado em primeira instância pela Justiça do Trabalho ao pagamento de R$ 30 milhões por aliciar jovens mulheres e adolescentes com promessas enganosas de trabalho para fins de exploração sexual. Em maio deste ano, ele foi formalmente acusado na 2ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) por exploração sexual e organização criminosa.
No comunicado publicado em seu site oficial, o grupo enfatiza que a solicitação de recuperação judicial é essencial para reestruturar suas finanças em um cenário marcado pela escassez de liquidez e garantir a continuidade das atividades empresariais.
“Durante o processo de recuperação, a Companhia buscará manter suas operações nos canais existentes, priorizando o atendimento ao cliente sem interrupções significativas e mantendo os padrões atuais de qualidade e serviço. Com uma readequação operacional orientada para atividades mais rentáveis e margens maiores, aliada ao alongamento das dívidas financeiras e operacionais, pretendemos encontrar uma solução definitiva para os desafios relacionados à nossa estrutura de capital”, afirma a nota da empresa.
Causas econômicas para a crise
As diversas razões apresentadas pela empresa justificam seu pedido de recuperação judicial e refletem um ambiente onde as altas taxas de juros impactam negativamente as empresas, especialmente aquelas dependentes do crédito para reestruturar suas obrigações financeiras. A falta de sucesso nas tentativas anteriores para reorganizar sua dívida também pesa contra as Casas Bahia.
Entretanto, é fundamental considerar outros fatores que contribuíram para a atual situação da companhia, incluindo uma abordagem conservadora em um mercado online cada vez mais competitivo.
Nos últimos anos, o comércio varejista global tem sido profundamente afetado pelo crescimento do comércio eletrônico. Embora o Grupo Casas Bahia tenha presença digital e atue em marketplaces, o aumento da concorrência limita seu espaço nesse setor. Além disso, uma maior digitalização facilitou comparações entre preços; consumidores habituados a comprar em um único local agora buscam ofertas em várias lojas antes da compra final.
Adicionalmente, os altos custos operacionais das lojas físicas onde a companhia cresceu estão levando-a a demitir funcionários e fechar estabelecimentos como forma de ajuste.
Outro aspecto relevante diz respeito ao endividamento da população brasileira. Com menos crédito disponível devido às altas taxas juros e um aumento nas dívidas pessoais, o consumo não cresce como antes. O governo federal tem buscado mitigar essa situação social com iniciativas como o programa Desenrola; porém os problemas herdados do governo anterior continuam prejudicando os cidadãos.
Por fim, vale ressaltar que as Casas Bahia inovaram com sua fórmula de crediário (carnês), mas a crescente bancarização está facilitando o acesso ao crédito através dos bancos digitais; isso se tornou mais acessível e prático para os consumidores. Tal evolução pressionou o modelo tradicional da empresa baseado em crediário – onde ela assume os riscos das vendas parceladas.

