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Colômbia enfrenta dilema: apoio à justiça popular ou repressão autoritária?

Recife CotidianoRecife Cotidianojunho 4, 2026 45 Minutes read0

A corrida presidencial na Colômbia alcançou um momento crucial, com a realização de um segundo turno que coloca em confronto dois projetos políticos diametralmente opostos.

Iván Cepeda, senador representando o Pacto Histórico, busca dar continuidade ao ciclo progressista iniciado por Gustavo Petro em 2022. Seu foco está na promoção de reformas sociais, no fortalecimento do papel do Estado, na ampliação da participação popular e na manutenção das negociações de paz com grupos armados.

Por outro lado, Abelardo de la Espriella é um advogado que simboliza uma extrema direita ultraconservadora e punitivista, fortemente influenciada por líderes como Donald Trump, Nayib Bukele e Javier Milei. Sua plataforma inclui estados de exceção, endurecimento das penas e uma concentração acentuada de poder no Executivo.

O segundo turno está agendado para o dia 21 de junho, após De la Espriella terminar a primeira etapa da eleição com 44% dos votos, enquanto Cepeda obteve 41%.

A polarização política se consolidou entre a esquerda vinculada aos movimentos sociais e uma nova direita que mescla um discurso antipolítico com conservadorismo religioso e propostas autoritárias.

Iván Cepeda chega à disputa presidencial munido de uma longa trajetória em movimentos relacionados aos direitos humanos, à memória histórica e às negociações de paz. Ele é filho do senador comunista Manuel Cepeda Vargas, assassinado em 1994 em um crime que envolveu paramilitares com participação estatal. Sua carreira política tem sido marcada pela denúncia da violência contra a esquerda colombiana.

Com formação em filosofia na Bulgária e especialização em Direito Internacional Humanitário na França, Cepeda se tornou uma referência na defesa dos direitos das vítimas do conflito armado colombiano. Sua atuação nos diálogos de paz com as Farc e as negociações com o ELN consolidou sua imagem como um parlamentar engajado nas questões de direitos humanos no país.

A notoriedade nacional de Cepeda aumentou principalmente devido ao longo processo judicial contra o ex-presidente Álvaro Uribe, figura proeminente da extrema direita colombiana. Ele foi tanto vítima quanto testemunha no caso que resultou na condenação de Uribe por fraude processual e suborno de testemunhas. Tal decisão elevou sua imagem entre os setores progressistas e incentivou pedidos para que ele concorresse à presidência.

Cepeda representa uma continuidade moderada da administração Petro, defendendo a ampliação do papel estatal na economia, reformas sociais significativas e o fortalecimento da participação popular. Ele também apoia a convocação de uma Assembleia Constituinte, proposta apoiada pelo governo atual mas criticada pela oposição conservadora.

Embora seus adversários o apresentem como “mais radical que Petro”, seus aliados o caracterizam como um líder conciliador e menos confrontativo. Sua estratégia eleitoral enfatiza uma forte presença nas comunidades locais, diálogo com movimentos populares e defesa das regiões historicamente marginalizadas da Colômbia.

A escolha da líder indígena Aida Quilcué como candidata a vice-presidente reforça essa abordagem voltada para setores sociais que frequentemente ficam à margem do poder político colombiano.

No lado oposto está Abelardo de la Espriella, um advogado criminalista que transformou sua fama midiática em uma candidatura presidencial. Ele é conhecido por defender empresários investigados por corrupção e envolvidos em escândalos ligados ao paramilitarismo. De la Espriella construiu sua imagem pública ao adotar uma postura ostentatória e retórica agressiva em prol de soluções radicais.

Sua campanha gira em torno do símbolo “tigre”, presente em jingles, vídeos promocionais e eventos políticos marcados por uma estética militarizada e forte apelo emocional junto ao público antipolítico.

De la Espriella promete governar através da implementação de estados de exceção, promover cortes drásticos no funcionalismo público, aumentar os poderes das forças de segurança e adotar políticas inspiradas no modelo repressivo implementado por Bukele em El Salvador.

Ao longo da sua carreira profissional, ele atuou na defesa de figuras centrais nos maiores escândalos políticos e financeiros tanto da Colômbia quanto da Venezuela. Ganhou notoriedade ao representar empresários envolvidos no escândalo DMG — uma pirâmide financeira que movimentou bilhões nos anos 2000 antes de ser acusada por lavagem de dinheiro e captação ilegal de recursos.

Outro aspecto importante da trajetória dele envolve a defesa de políticos implicados na chamada “parapolítica”, um escândalo que revelou conexões entre parlamentares e grupos paramilitares responsáveis por massacres e narcotráfico.

De la Espriella também manteve vínculos estreitos com setores próximos ao uribismo, associado ao ex-presidente Álvaro Uribe. Essa corrente política é marcada por denúncias sobre relações entre aliados regionais e grupos paramilitares durante os períodos mais críticos do conflito armado colombiano.

Apesar nunca ter sido condenado judicialmente, sua carreira é cercada por controvérsias relacionadas a lobby político, ligações com empresários sob investigação e campanhas intimidadoras contra jornalistas.

A candidatura dele se baseia fortemente no apoio das igrejas evangélicas e grupos conservadores. De la Espriella apresenta sua trajetória política como resultado de uma “conversão religiosa”, utilizando linguagem moralista em sua campanha. Ele defende valores tradicionais enquanto luta contra o chamado “progressismo cultural”, propondo um endurecimento penal combinado com a ampliação dos poderes presidenciais.

Analistas colombianos apontam que seu crescimento reflete não apenas o antipetrismo generalizado mas também um desgaste profundo nas instituições políticas convencionais acompanhadas pela busca por soluções imediatas frente à violência crescente.

Sua campanha amalgama elementos do bolsonarismo brasileiro, do trumpismo americano e do estilo confrontacional característico de Javier Milei, unindo discursos antiestablishment com aproximações junto a elites regionais.

A disputa entre Cepeda e De la Espriella representa uma divisão política mais ampla presente na América Latina: forças progressistas tentam preservar suas agendas sociais enquanto enfrentam o avanço radicalizado da direita que aposta na militarização como resposta às crises sociais e econômicas abrangentes.

O segundo turno colombiano será monitorado atentamente tanto por governos regionais quanto pelas principais potências internacionais. A eleição ocorre em um contexto onde há avanços significativos das forças conservadoras na América Latina, pressão dos Estados Unidos sobre administrações progressistas e debates acerca segurança pública, papel do Estado na economia regional e soberania econômica.

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