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Em Istambul, a união em prol de Cuba se transformou em música, discurso e afeto genuíno

Recife CotidianoRecife Cotidianoabril 23, 2026 936 Minutes read0

Na cidade de Istambul, a transição do dia para a noite aconteceu em uma tarde fria, próximo das 19 horas. A atmosfera da metrópole, que ao longo dos séculos tem sido cenário de encontros e conflitos entre diferentes culturas, se transformou ao adentrar o Centro Cultural Nazım Hikmet. Nesse espaço, as baixas temperaturas foram deixadas do lado de fora, dando lugar a um ambiente acolhedor e vibrante, repleto de delegados internacionais interagindo em múltiplos idiomas e expressando gestos de empatia e reconhecimento mútuo. O calor humano prevalecia, reunindo pessoas de diversas nações unidas por um sentimento que vai além das palavras: a solidariedade.

O evento não foi apenas mais uma data no calendário. Realizado em 19 de abril, o dia possui um significado profundo na história cubana e nas lutas contra o imperialismo. Foi nesse mesmo dia, em 1961, que mercenários treinados pelos Estados Unidos tentaram invadir Cuba pela Playa de Girón, mas foram derrotados pelas forças cubanas, marcando uma vitória histórica. Essa memória permeava o encontro em Istambul, conferindo ainda mais relevância ao momento.

O Centro Cultural Nazım Hikmet é um local que respira história e significado. Sob a direção do Partido Comunista da Turquia, leva o nome de um dos poetas revolucionários mais influentes do século XX, cuja trajetória foi marcada por exílio e perseguição devido ao seu compromisso com os ideais populares. Este espaço representa uma experiência concreta de política cultural vinculada ao partido e pode servir como inspiração para iniciativas semelhantes no Brasil, como a Casa Augusto Buonicore em Campinas. A essência desse lugar não estava apenas nas paredes ou no nome; era sentida na atmosfera coletiva onde as pessoas se encontravam e se reconheciam mutuamente.

Foi nesse cenário que ocorreu a atividade político-cultural em apoio a Cuba, reunindo representantes de diversos países no contexto da 24ª Reunião do Grupo de Trabalho do Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários. Mais do que um simples evento, tratava-se de um momento significativo onde diferentes trajetórias se entrelaçavam por meio de uma visão compartilhada sobre os desafios mundiais e a necessidade urgente de defendê-los.

A programação cultural foi rica em simbolismo e beleza. A noite começou com uma apresentação instrumental que combinava bateria e piano, interpretando “El necio”, de Silvio Rodríguez, estabelecendo um tom intenso para o encontro. Em seguida, canções instrumentais e baladas foram entrelaçadas em um repertório que refletia décadas de luta e memória coletiva. Músicas como “Si me quieres escribir”, de Emilio Prado; “Hasta siempre, Comandante” e “De Cuba traigo un cantar”, de Carlos Puebla; além da clássica “Guantanamera”, cantada por Joseíto Fernández, reverberaram pelo espaço.

Um dos momentos mais emocionantes da noite ocorreu quando um coral subiu ao palco, intensificando ainda mais o sentimento coletivo do evento. As vozes harmonizadas não só realçaram a beleza estética das apresentações como também simbolizaram a unidade entre os povos, transformando a música em uma expressão viva da solidariedade internacional.

À medida que soavam “Y en eso llegó Fidel”, também de Puebla, e “Girón, la victoria”, interpretada por Sara González, a presença histórica de Cuba parecia se materializar no ambiente.

A diversidade musical também cruzou fronteiras durante a noite. A canção “El pueblo unido jamás será vencido”, composta por Sergio Ortega e interpretada por Quilapayún, reforçou a dimensão latino-americana da luta enquanto “One should be like the sea”, do artista turco Zülfü Livaneli, trouxe à tona a tradição de resistência da Turquia. Entre as apresentações musicais ecoava também a poesia musicada de Nâzım Hikmet em espanhol, criando uma conexão ainda mais forte entre Cuba e Turquia.

No palco compartilhado por artistas cubanos e turcos, não havia apenas música sendo tocada; havia história sendo vivida e um compromisso renovado entre culturas distintas. Era uma cena carregada de emoção onde trajetórias variadas se encontravam sob um mesmo ideal político-humanitário.

A cada fala ou canção apresentada, o público reagia ativamente. As intervenções eram constantemente acompanhadas por gritos fervorosos em espanhol e turco que clamavam apoio à Cuba e denunciavam o imperialismo. A plateia não era passiva; era um coletivo unido pela paixão pela causa.

Entre os presentes estavam jovens adultos, casais mais velhos e até famílias inteiras com crianças pequenas; todos compartilhando aquele momento como uma celebração internacionalista genuína. O valor humano daquele encontro se manifestava na diversidade das nacionalidades ali representadas e na calorosa recepção dos turcos aos delegados internacionais — generosidade que evidenciava um profundo senso solidário. Essa solidariedade se manifestou não apenas nos discursos ou nas músicas entoadas mas também na presença real das pessoas que ocupavam aquele espaço unidos por algo maior.

Cuba emergia não apenas como tema central daquela noite; ela representava uma ideia persistente — um povo que resiste mesmo diante décadas de bloqueios econômicos pressões externas reafirmando sua soberania. Falar sobre Cuba naquela ocasião significava falar sobre dignidade humana, resistência contínua e esperança no futuro.

Elier Ramírez representando o Partido Comunista Cubano enfatizou a importância daquele encontro ao afirmar: “a solidariedade com Cuba é mais que um ato político; é uma demonstração concreta da união dos nossos povos na defesa da soberania.”

Por sua vez, Kemal Okuyan, secretário geral do Partido Comunista da Turquia destacou o papel essencial do internacionalismo nestes tempos difíceis: “em meio às ofensivas imperialistas atuais é crucial fortalecer laços solidários entre os povos lutadores por justiça e liberdade”.

A música junto às palavras criaram uma espécie de espaço comum onde o conceito de internacionalismo deixou de ser teórico para se concretizar na prática. Ao final do evento, num clima descontraído, os delegados internacionais participaram juntos de um jantar coletivo com representantes cubanos na Turquia compartilhando pratos típicos locais prolongando assim as experiências vividas durante as apresentações.

Durante essa confraternização destacou-se também o Rakı — bebida tradicional turca feita à base de uvas aromatizada com anis — servida aos presentes. Ao ser misturada com água fria transforma-se numa coloração branca leitosa. Este drinque forte costuma ser consumido em momentos festivos junto à alimentação típica turca marcando assim mais um momento simbólico da união cultural daquela noite.

A presença do Partido Comunista do Brasil naquele local significou reconhecer essa dimensão profunda da política — aquela que é vivida através das experiências comunitárias reais além dos documentos formais: é na cultura que ela se afirma.

Do lado externo do Centro Nazım Hikmet continuava frio em Istambul; porém dentro dele permanecia aceso algo especial — um calor proveniente não apenas dos corpos ali presentes mas principalmente do laço invisível que os unia.

Como retratado na canção inspirada pela poesia Nâzım Hikmet: à beira-mar perguntava-se “Ser nube? Ser barco? Ser pez
o ser el alga en el fondo del mar.”

Nessa noite talvez estivesse clara a resposta: ser mar.

Para ouvir as músicas que marcaram essa atividade político-cultural solidária com Cuba acesse nossa playlist no Spotify.

A postagem intitulada “Em Istambul: solidariedade a Cuba manifestada através da música” foi publicada primeiramente aqui.

Tags
Centro Cultural Nazım HikmetInternacionalistambulPartido Comunista da TurquiaSolidariedade a Cuba

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