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Trump no Irã: entre a fantasia bélica e o colapso político

Recife CotidianoRecife Cotidianoabril 23, 2026 1234 Minutes read0

Após cinquenta e quatro dias da ofensiva militar contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro, a administração de Donald Trump se vê em uma complexa situação geopolítica. Apesar da clara superioridade militar dos Estados Unidos e de Israel, que resultou na destruição de ativos navais e na diminuição das capacidades balísticas iranianas, o objetivo político de forçar uma “rendição incondicional” continua inalcançado. Analistas descrevem o momento atual como um “empate instável”, questionando a efetividade da estratégia da Casa Branca antes de novas negociações iminentes no Paquistão.

A referência ao histórico “erro crasso”, que remete à fracassada campanha de Marco Crasso contra os Partos em 53 a.C., se tornou comum nas discussões sobre o conflito. Assim como o general romano subestimou a resistência oriental e levou suas forças ao desastre, Trump é visto como responsável por uma combinação de arrogância militar e falta de visão política.

Desconexão entre mísseis e resultados

Desde o início das hostilidades, Trump declarou metas audaciosas: desmantelar o programa nuclear iraniano, eliminar os arsenais de mísseis e drones e assegurar a navegação livre no Estreito de Ormuz. Relatos provenientes do The New York Times e do Los Angeles Times indicam danos substanciais à infraestrutura do Irã. No entanto, a tão desejada “submissão estratégica” ainda não se concretizou.

Antes do primeiro ataque, ocorrido em 16 de janeiro de 2026, a Dra. Sanam Vakil, que dirige o Programa de Oriente Médio e Norte da África no Chatham House – um renomado instituto britânico especializado em relações internacionais – já alertava que o objetivo principal de Trump era forçar o Irã à “submissão estratégica”. Isso implicaria limitar permanentemente seu programa nuclear, suas capacidades missilísticas e sua influência regional por meio de uma combinação de bombardeios, sanções econômicas e pressão diplomática constante. Em análises subsequentes, Vakil ressaltou que a intensificação dos ataques e os altos custos humanos tornaram o conflito uma guerra onde “ninguém está claramente vencendo”, com perdas superando os ganhos possíveis.

Para David Remnick, editor da revista The New Yorker, junto com o analista Karim Sadjadpour, especialista em Irã, a gestão desse conflito é vista como uma forma de “malpractice” estratégica — aproximando-se da ideia de “erro crasso” na condução da guerra. Além disso, Danny Citrinowicz, ex-oficial de inteligência israelense, descreve a operação como um “colossal desastre”, atribuindo isso à falha em calcular a resiliência iraniana, que continua operando drones mesmo sob bombardeios.

Desmascaramento e desgaste internacional

O jornalista José Reinaldo Carvalho, presidente do Cebrapaz, argumenta que a reputação internacional de Trump foi severamente abalada devido ao modo abrupto como a guerra começou — sem declaração formal enquanto as negociações ainda estavam em andamento. “Trump se desmascarou ao se apresentar como mediador nos conflitos, acreditando que isso poderia lhe garantir um Nobel da Paz. Passados 54 dias desde o início da guerra, ele causou um grande desgaste; não conseguiu alcançar seus objetivos declarados ou derrubar o regime iraniano. Embora tenha causado danos substanciais, não eliminou as capacidades militares do país nem destruiu sua infraestrutura petroquímica ou seu programa nuclear”, afirma José Reinaldo.

Ele também observa que existe um desgaste interno crescente na avaliação do governo Trump e que seu apoio popular está fragmentado. “A imagem dele está arruinada pelas acusões de crimes de guerra. Ele afirma que estenderá o cessar-fogo até que o Irã aceite negociar; porém, Teerã recusa qualquer negociação enquanto os EUA mantiverem o bloqueio no Estreito”, acrescenta.

A pressão para normalizar a navegação naquela região só aumenta; enquanto isso, a China exerce uma influência discreta e Xi Jinping já se manifestou favoravelmente à liberação das rotas marítimas.

Para José Reinaldo, essa situação aprofunda ainda mais a diminuição da influência dos EUA. “Não vejo nenhuma possibilidade de Trump enviar tropas para uma guerra prolongada. A atual situação tende a ser mais desgastante para os EUA enquanto fortalece o multilateralismo”, conclui.

Resistência regional e multilateralismo 

O conflito também reverbera no Líbano e na Palestina, onde as ações militares israelenses continuam ativas. O diretor da Fundação Maurício Grabois, Ricardo Abreu “Alemão”, comenta que Trump está “momentaneamente derrotado” no cenário político atual. “Não acredito que sua derrota seja definitiva; contudo, há uma ofensiva israelense ativa no sul do Líbano agora. É crucial articular novas campanhas pela paz com enfoque anti-imperialista semelhante ao movimento nos EUA”, analisa Abreu.

Nesse contexto vazio de liderança global, observa-se um fortalecimento do multilateralismo. Enquanto Washington se isola cada vez mais, Pequim busca defender a estabilidade na região do Estreito de Ormuz, evidenciando assim a queda da hegemonia norte-americana.

O impasse no Paquistão

Segundo informações do Washington Institute for Near East Policy, um centro voltado para pesquisa sobre política e segurança no Oriente Médio com estreitas conexões com formuladores da política externa dos EUA – um acordo abrangente parece distante no curto prazo. Isso se deve à recusa iraniana em congelar seu programa nuclear por vinte anos além da exigência pela suspensão imediata do bloqueio naval.

A resolução das questões no Paquistão será determinante para definir se haverá um armistício tático ou uma escalada nos custos globais relacionados ao conflito. Por ora, as ações de Trump assemelham-se às estratégias falhas de Crasso: uma demonstração militar que acaba por expor as fragilidades estratégicas existentes.

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