Na última sexta-feira (17), o presidente argentino, Javier Milei, promulgou um decreto que permite a entrada de tropas militares dos Estados Unidos em solo argentino para a realização de manobras conjuntas. O governo justificou essa ação como uma medida de “necessidade e urgência”, isentando assim a necessidade de autorização prévia do Congresso Nacional, conforme exigido pela Constituição da Argentina para a presença de forças estrangeiras no país.
Atividades programadas e locais de atuação
A operação denominada “Atlantic Dagger” (Adaga do Atlântico) terá início na próxima terça-feira e se estenderá até 12 de junho, com atividades planejadas para locais como a Base Naval de Puerto Belgrano e a VII Brigada da Força Aérea Argentina, localizada em Moreno, na província de Buenos Aires. Além disso, entre os dias 26 e 30 de abril, ocorrerá a operação naval “PASSEX”, que contará com a presença do porta-aviões USS Nimitz e do destróier USS Gridley na Zona Econômica Exclusiva da Argentina.
De acordo com informações oficiais, aproximadamente 400 soldados americanos participarão das operações, incluindo equipes logísticas e de execução. O decreto assinado por Milei ressalta que os exercícios têm como objetivo “potencializar capacidades nacionais” e aprimorar a colaboração entre as forças armadas argentinas e americanas.
Aspectos legais e controvérsias constitucionais
A entrada de tropas estrangeiras no território argentino requer autorização legislativa conforme estipulado pelo artigo 99, inciso 13 da Constituição. No entanto, o governo Milei invocou disposições excepcionais para emitir o decreto, alegando que os procedimentos normais “impossibilitariam” a realização das atividades dentro do prazo estabelecido.
Juristas e membros da oposição levantaram questões sobre a validade desse decreto. Walter Vuoto, prefeito de Ushuaia, expressou preocupação nas redes sociais: “É a porta de entrada para a Antártida; é o território que sustenta nossa reivindicação sobre as Malvinas”, destacando a importância geopolítica da área.
Contexto internacional e alinhamento diplomático
A autorização para os exercícios militares acontece em um contexto de crescente aproximação estratégica entre Buenos Aires e Washington. O almirante Alvin Holsey, comandante do Comando Sul dos EUA, fez duas visitas à Argentina neste ano, reiterando compromissos sobre cooperação no combate a “ameaças transnacionais” e à influência de potências fora da região no Cone Sul.
Paralelamente, Milei viajou a Israel, onde recebeu um título honorário da Universidade Bar-Ilan e formalizou acordos de segurança com o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Durante sua visita, o presidente argentino manifestou apoio às posições defendidas pelos EUA e Israel no Oriente Médio, afirmando que “não poderemos conviver com certas culturas”.
Cenário econômico e repercussões internas
Essa decisão ocorre em um momento delicado para a Argentina, que enfrenta uma crise econômica caracterizada por inflação elevada, ajustes fiscais rigorosos e negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Críticos argumentam que os cerca de 60 milhões de pesos argentinos destinados aos exercícios poderiam ser melhor utilizados em áreas sociais.
No Congresso, tramitam projetos de lei propostos pelo Executivo que buscam reformar políticas públicas relacionadas a pessoas com deficiência, saúde e aposentadorias. Organizações sociais expressaram suas preocupações sobre os possíveis efeitos negativos dessas propostas na sociedade.
Monitoramento das ações
O governo argentino defende que participar de exercícios multinacionais contribui para fortalecer a “estabilidade regional” e aprimorar as capacidades em situações de assistência humanitária. Em resposta, a oposição anunciou sua intenção de buscar esclarecimentos no Congresso sobre os detalhes da cooperação militar e os custos envolvidos para as finanças públicas.
Enquanto isso, as operações “Atlantic Dagger” e “PASSEX” continuam conforme o cronograma previsto, sendo monitoradas por especialistas em defesa e grupos de direitos humanos que observam atentamente as implicações da presença militar estrangeira no território argentino.

