Na quinta-feira, dia 13 de agosto, as luzes em cinemas de 18 cidades brasileiras se apagarão para dar espaço a uma narrativa poderosa. Um jovem de 26 anos, que teve sua vida interrompida em 10 de outubro de 1973 pelo Centro de Informações da Marinha (Cenimar), terá seu legado revivido na tela. Embora não esteja presente fisicamente, o que emerge em Honestino é a essência que nunca foi aprisionada — um nome, uma voz, um ícone e um exemplo a ser seguido.
Produzido pela Mercado Filmes e distribuído pela Pandora Filmes, o longa-metragem possui roteiro elaborado por Michiles e André Finotti. A obra entrelaça imagens de arquivo, cartas, poemas e depoimentos de familiares e amigos, como Jorge Bodanzky, Franklin Martins e Almino Afonso, com encenações dramáticas nas quais Bruno Gagliasso desempenha o papel do líder estudantil.
O filme não foi lançado sem reconhecimento: passou pelo Festival do Rio, onde conquistou o Troféu Redentor na categoria Melhor Montagem, além de participar da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e do Festival Bonito Cinesur. Na segunda-feira anterior ao lançamento oficial, Lula e Janja acolheram no Cine Alvorada a família de Honestino, a equipe e dirigentes da UNE para uma pré-estreia que se assemelhava mais a uma cerimônia de celebração da memória do que a um simples lançamento.
A caixa que guardava uma vida
A origem do filme está enraizada em um medo e um vídeo. Michiles, natural de Manaus e formado na UnB e no Parque Lage, recorda-se de ter conhecido Honestino durante os tempos universitários e carregar sua história “de forma sufocante”. Em 2013, ao perceber o crescente ciclo político que levaria à extrema direita no Brasil, sentiu a urgência em contar essa história.
A mensagem que recebeu de Isaura, primeira esposa do militante e mãe da filha Juliana — um vídeo do neto Lucas discursando na reinauguração da ponte batizada em homenagem ao avô — foi decisiva. O jovem expressava seu desejo de conhecer as histórias sobre Honestino. Posteriormente, Isaura entregou ao diretor uma caixa repleta de cartas, poemas e manifestos.
“Toda a vida dele estava ali naquela caixa”, recorda Michiles. A partir desse material surgiu o formato híbrido do filme — uma maneira de evitar o que ele chama de “ambiente arqueológico”: não uma peça fria exposta em museus, mas sim uma memória pulsante.
O “elefante vermelho” da Asa Sul
A trajetória de Honestino é notável. Nascido em Itaberaí (GO), ele chegou a Brasília em 1960 junto com sua família. No Centro de Ensino Médio Elefante Branco — conhecido como “elefante vermelho” pelos militares devido à sua resistência; atualmente, o grêmio estudantil leva seu nome — começou a desenvolver seu engajamento político.
No ano seguinte à instalação da ditadura militar em 1964, ingressou na clandestina Ação Popular enquanto ainda era estudante no CIEM. Aos 18 anos, destacou-se ao passar em primeiro lugar para Geologia na UnB. Entre suas atividades acadêmicas e políticas, presidiu a Federação dos Estudantes Universitários de Brasília. Ele foi preso diversas vezes e vivenciou uma das invasões militares mais brutais ao campus universitário em 1968 — conhecida como “invasão à Feub”.
Após ser expulso da universidade com a edição do AI-5, viveu na clandestinidade entre São Paulo e Rio de Janeiro. Mesmo sem visibilidade pública, foi eleito presidente da UNE em 1971 e continuou sua luta na Ação Popular Marxista-Leninista até ser capturado pelo Cenimar em 10 de outubro de 1973.
Seu corpo nunca foi encontrado. O atestado oficial só seria emitido em 1996 devido à Lei dos Desaparecidos Políticos; mais 18 anos se passaram até que esse documento reconhecesse publicamente o que a família sempre soube: ele morreu devido “a atos violentos perpetrados pelo Estado”. Em 2014 houve o reconhecimento póstumo por meio da anistia política; já em 2024, a UnB anulou seu desligamento acadêmico e concedeu-lhe finalmente o diploma em Geologia.
Do torturador ao lado certo da história
A escolha do ator principal é outro aspecto intrigante do projeto. Após assistir Bruno Gagliasso interpretar o torturador Sérgio Fleury no filme Marighella, dirigido por Wagner Moura, Michiles decidiu escalá-lo para este novo papel. Apresentado ao projeto por Sérgio Machado, Gagliasso buscou trazer não apenas a figura heroica para as telas, mas também explorar a humanidade do personagem — pai, filho e amigo.
Gagliasso admite não ter conhecimento prévio sobre Honestino antes do convite e reflete sobre as diferenças morais entre os dois papéis: “Foi muito mais gratificante estar do lado certo da História.” Para ele, o filme transcende o passado; é relevante discutir temas como os ataques recentes às urnas eletrônicas e os eventos ocorridos no dia 8 de janeiro. O ator acredita ser fundamental abordar a ditadura no cinema contemporâneo.
A memória como arma política
Honestino surge após Ainda Estou Aqui, documentário sobre Rubens Paiva ganhador do Oscar que reabriu debates nacionais sobre o regime militar. O longa confirma uma ideia central: a memória é um campo contestado no Brasil. “A memória é uma arma política”, afirma Bianca Borges, presidenta da UNE; para ela, Honestino simboliza “coragem contra o autoritarismo” e “recusa ao silêncio”.
A lista das homenagens ilustra bem essa batalha: locais como o Teatro de Arena e o DCE em Brasília homenageiam seu nome; assim como o Museu Nacional da República projetado por Niemeyer. A ponte que por décadas homenageou Costa e Silva recebeu seu novo nome apenas em dezembro de 2022 após vetos e derrubadas ações legislativas. Renomear uma ponte vai muito além disso: trata-se sobre quem caminha rumo ao futuro.
Água limpa sob o lodo
Michiles compara preservar memórias à limpeza dos rios: “É como retirar camadas de lodo para encontrar água cristalina.” O filme representa essa pá utilizada nesse trabalho. Além disso, responde diretamente ao neto Lucas que desejava ouvir histórias sobre seu avô: agora todo um país tem acesso a essas narrativas. Betty Almeida já havia registrado essas memórias em Paixão de Honestino, enquanto Paula Damasceno fez um minidocumentário sobre ele em 2013; agora o cinema completa esse ciclo narrativo.
Ao deixar as salas escuras nesta quinta-feira, os espectadores levam consigo uma reflexão trazida pelo protagonista: “Honestino está mais vivo do que muitos imaginam.” Aqueles que acreditam na democracia e na liberdade carregam um pouco dele dentro deles mesmos. E enquanto existirem espaços para ouvir essas histórias contadas nas telonas, Honestino permanecerá presente: sempre aliado à luta pela justiça social.
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