Na manhã desta terça-feira (18), o Brasil sentiu um vazio peculiar, como se uma era estivesse chegando ao fim. Laura Cardoso, uma das mais icônicas atrizes da dramaturgia nacional, faleceu aos 98 anos. Natural do Bixiga, em São Paulo, Laura completaria 99 anos em setembro.
A atriz passou seus últimos momentos em casa, no bairro Sumaré, na Zona Oeste de São Paulo, falecendo de causas naturais. O velório ocorrerá na Bela Vista, das 8h às 14h. A família comunicou sua morte por meio das redes sociais e destacou que a artista eternamente permanecerá na lembrança de seu público.
Esse fenômeno é característico de algumas trajetórias artísticas: elas se tornam parte da vida das pessoas que as apreciam. Durante décadas, Laura Cardoso adentrou os lares brasileiros através da televisão, rádio e teatro. Seus personagens ganharam vida própria, envelhecendo e sendo revividos em reprises, sempre presentes na memória dos fãs.
A menina do Bixiga que se tornou ícone cultural
Filha de imigrantes portugueses, Laura sonhava em ser atriz desde a infância. Com apenas 16 anos, iniciou sua carreira no rádio. Em seguida, passou pelo circo e pelo teatro até fazer sua estreia na televisão em 1952, pela TV Tupi.
Essa foi a porta de entrada para uma trajetória que atravessaria diversas fases da cultura brasileira. Ao longo de sua carreira, Laura participou de mais de 60 novelas e inúmeras peças teatrais, além de atuar no cinema e na dublagem.
No entanto, o que realmente se destacou não foi apenas a quantidade de trabalhos realizados, mas sua habilidade em se transformar completamente nas personagens que interpretava. Ela podia ser desde uma mãe preocupada até uma avó carinhosa ou mesmo uma matriarca severa; suas atuações eram multifacetadas e cativantes.
O que mais impressionava em seu talento não era somente a voz poderosa, mas sim o olhar expressivo.
Laura pertencia àquela seleção especial de intérpretes capazes de transmitir uma narrativa apenas com o olhar. Seus olhos podiam expressar descontentamento, amor, desconfiança ou esperança com precisão impressionante e frequentemente sem pressa — como se compreendesse a importância do silêncio no drama.
Uma atriz inserida nas contradições do Brasil
A extensa carreira de Laura também pode ser vista como um reflexo das complexidades da sociedade brasileira.
Em “Mulheres de Areia”, deu vida a Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel, explorando temas como maternidade e ciúme. Em “A Viagem”, mergulhou em questões sobre espiritualidade e as transições entre vida e morte. Já em “Gabriela”, interpretou Doroteia, a beata moralista que escondia um passado repleto de hipocrisia.
Laura não precisava fazer discursos políticos para que suas personagens abordassem questões sociais relevantes. Temas como autoritarismo, desigualdade social e hipocrisia estavam frequentemente presentes nas narrativas que ajudou a construir.
Em “Irmãos Coragem”, ela esteve envolvida na luta entre trabalhadores e autoridades locais. Em “Fera Radical”, retratou a violência rural enquanto buscava justiça. E em “Explode Coração”, viveu Soraya, uma cigana cujas histórias abordavam preconceitos culturais.
A atriz não precisava estar ativamente engajada em política para representar um país repleto de conflitos internos.
A política fora dos partidos
Laura Cardoso manteve-se distante das militâncias partidárias convencionais. Suas declarações públicas refletiam mais um ceticismo em relação à política formal do que um apoio a qualquer partido específico.
Ela criticava autoridades e manifestava indignação diante da corrupção e ineficiência do governo. Simultaneamente, defendia a importância da cultura e educação como pilares fundamentais para o desenvolvimento social.
A atriz sempre fez questão de exercer seu direito ao voto, encarando isso como um dever cívico. Sua visão era mais a de uma cidadã observadora do que a de uma ativista política vinculada a um partido específico.
Tal independência pode ajudar a entender por que sua imagem conseguiu transitar por diferentes contextos políticos sem se restringir a nenhum deles.
“Eu amo representar”
A expressão que pode sintetizar melhor Laura Cardoso não é uma linha retirada de suas novelas, mas sim uma declaração sobre seu amor pelo ofício:
“Eu amo representar; quer me ver? Coloca-me no palco, na televisão, no rádio ou no circo.”
A atriz nunca tentou esconder sua idade; ao contrário, parecia ter transformado as marcas do tempo em uma espécie de distintivo profissional.
“Não me sinto velha,” costumava afirmar. “Trabalhar me impulsiona a viver.”
E assim continuou atuando até os 90 anos quando surpreendeu novamente o público ao interpretar uma dona de bordel na novela “O Outro Lado do Paraíso”. Antes disso acumulara papéis já icônicos na cultura brasileira. Em 2017 foi laureada pela terceira vez com o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro como melhor atriz coadjuvante pelo filme “De Onde Eu Te Vejo”.
Ainda recebeu reconhecimentos significativos ao longo da carreira incluindo a Ordem do Mérito Cultural — um prêmio que representa muito mais do que conquistas pessoais: é um testemunho sobre sua contribuição essencial à cultura brasileira.
O palco pode estar vazio, mas a personagem permanece viva
Laura Cardoso se via como uma “operária da dramaturgia”, talvez essa definição seja mais precisa do que qualquer título honorário pudesse transmitir.
Sua carreira foi moldada antes mesmo da televisão tornar-se essa colossal indústria cultural contemporânea. Ela atuou numa época em que o teatro era sinônimo de aventura e onde o rádio dominava as mentes coletivas por meio da imaginação.
Navegou por essas transformações sem jamais abrir mão do trabalho fundamental do ator.
Dessa forma, sua morte não implica no fim total de sua presença artística. Laura Cardoso continuará presente nas reprises das novelas ou quando seus personagens provocarem risos ou lágrimas; ela será lembrada quando jovens atores estudarem suas cenas ou quando alguém reconhecer nela parte de sua própria história pessoal.
Existem atrizes que apenas desempenham papéis.
E existem artistas cuja interpretação transcende o tempo e passa a representar toda uma nação.
Laura Cardoso foi certamente uma dessas artistas.

