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Falece Glória Menezes, ícone da televisão que retratou a alma do Brasil

Recife CotidianoRecife Cotidianoagosto 20, 2026 34 Minutes read0

Glória Menezes faleceu na terça-feira (18), aos 91 anos, em sua residência no Rio de Janeiro. De acordo com informações familiares, a causa do falecimento foi natural. Com uma carreira que se estendeu por mais de sessenta anos no teatro, cinema e televisão, ela deixa um legado significativo na dramaturgia brasileira.

A atriz nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 19 de outubro de 1934, sob o nome de Nilcedes Soares de Magalhães. Mudou-se para São Paulo ainda na infância e se formou na Escola de Arte Dramática da USP, onde iniciou sua trajetória no teatro. O nome artístico foi escolhido posteriormente: “Glória” por ser facilmente pronunciável em várias línguas e “Menezes” devido às suas raízes portuguesas.

Entretanto, foi na televisão que sua imagem se tornou icônica para diversas gerações.

Em 1963, Glória fez parte da novela “2-5499 Ocupado”, a primeira telenovela diária do Brasil. Em seguida, casou-se com Tarcísio Meira em 1964 e juntos formaram um dos casais mais memoráveis da telinha. A parceria, tanto pessoal quanto profissional, perdurou por quase sessenta anos, até a morte de Tarcísio em 2021.

Do cinema à fama nas novelas

Antes de se destacar na televisão, Glória já havia conquistado reconhecimento no cinema. Sua interpretação como Rosa, esposa de Zé do Burro no filme “O Pagador de Promessas”, dirigido por Anselmo Duarte, deixou uma marca significativa. A obra ganhou a Palma de Ouro em Cannes e foi indicada ao Oscar como melhor filme estrangeiro. A performance da atriz se destacou pela sobriedade e profundidade emocional.

Na telinha, Glória atuou em mais de quarenta novelas e foi fundamental para estabelecer uma nova forma de atuação nas câmeras, marcada pelo naturalismo psicológico. Entre seus trabalhos mais notáveis estão “Irmãos Coragem”, “Guerra dos Sexos”, “Rainha da Sucata”, “A Próxima Vítima”, “A Favorita”, “Senhora do Destino” e “Totalmente Demais”, sua última novela exibida em 2015.

Além disso, ela demonstrou grande versatilidade como atriz. Transitava com facilidade entre papéis que iam desde mocinhas a personagens cômicos e vilãs dramáticas. Em “Rainha da Sucata”, a personagem Laurinha Figueroa se tornou uma das suas interpretações mais icônicas. Em “Deus nos Acuda”, foi reconhecida por seu papel como Baby. A colaboração com o dramaturgo Silvio de Abreu foi essencial para sua carreira, começando com “Jogo da Vida” e seguindo por diversas obras célebres do autor.

A conexão com a política

A trajetória artística de Glória Menezes está intrinsecamente ligada à história política do Brasil. Embora não tenha sido uma militante ativa em partidos políticos, seu trabalho coincidiu com um período em que a televisão se tornou um meio importante de entretenimento e formação social enquanto enfrentava a censura.

Um caso emblemático é a novela “Cavalo de Aço”, lançada em 1973. Esta produção abordava questões relacionadas à reforma agrária e sofreu várias interferências da censura federal. O texto passou por alterações até incorporar uma trama policial envolvendo o assassinato de um influente fazendeiro. Glória interpretava Miranda, uma forte fazendeira.

Esse episódio evidencia o caráter político presente na dramaturgia que muitas vezes tinha que ser expressa indiretamente. Durante a ditadura militar, temas como concentração fundiária e desigualdade social eram mais do que ficção; eram assuntos controlados pelo Estado.

A vida dela ao lado de Tarcísio também incluiu momentos de resistência cultural. Em 1978, após uma apresentação teatral protagonizada por Glória, Tarcísio leu um manifesto que teve registro pelo Serviço Nacional de Informações, relacionado ao repúdio à violência policial e apoio à anistia.

No processo de redemocratização do Brasil, ela esteve entre os artistas que assinaram manifestos sobre a Lei da Anistia conforme registros do Arquivo do Senado.

Anos depois, em 2021, Glória e Tarcísio foram signatários de um manifesto pedindo o impeachment do então presidente Jair Bolsonaro.

Embora esses episódios demonstrem seu envolvimento político pontual, o legado dela é o de uma artista que navegou por diferentes regimes e censuras sem perder seu espaço na cultura pública.

A artista além das telas

Glória Menezes também teve uma carreira teatral extensa. Atuou em peças renomadas como “As Feiticeiras de Salém”, “Júlio César”, “Ricardo III”, “Jornada de um Poema” e “Ensina-me a Viver”. No teatro recebeu diversos prêmios importantes por suas atuações dramáticas que exigiam grande transformação emocional.

Sua trajetória está entrelaçada à evolução da dramaturgia brasileira, sendo parte integrante da geração que transformou a televisão numa indústria cultural relevante no país.

<pRecentemente, Glória recebeu uma homenagem póstuma ao ser agraciada com uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo. Ela não pôde comparecer à cerimônia; seu filho Tarcísio Filho representou-a nesse momento especial. Essa homenagem ocorreu durante o período que marcava cinco anos da morte de Tarcísio Meira.

Uma ícone das artes brasileiras

A morte de Glória Menezes encerra um capítulo significativo na história das artes no Brasil. Sua carreira começou quando a televisão ainda buscava sua identidade e finalizou quando as novelas já eram consolidadas como um dos principais produtos culturais do país.

No meio desse percurso ficaram personagens como Rosa, Miranda, Laurinha e Baby; algumas amaram enquanto outras conspiraram; algumas sofreram enquanto outras exerceram poder.

Essa é talvez a maior medida da relevância dela: Glória Menezes não apenas participou da história televisiva brasileira; ela ajudou ativamente a moldar a narrativa com que o país aprendeu a se ver nas telas.

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anistiaatrizBolsonaroculturaditaduraGlória MenezesnovelasO Pagador de Promessasteatro

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