Na tarde desta terça-feira (14), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com Igor Calvet, que preside a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), no Palácio do Planalto. O encontro foi marcado pela celebração de um importante marco: 3 milhões de emplacamentos de automóveis neste ano. Durante a conversa, Lula fez um apelo estratégico às montadoras internacionais para que considerem o Brasil como centro de exportação para a América Latina.
O presidente enfatizou que não faz sentido econômico ou logístico que fabricantes estrangeiros, como os da Alemanha, enviem veículos para a região a partir de seus países de origem, desconsiderando as vantagens competitivas que o Brasil possui. “Veículos poderiam ser exportados diretamente daqui, um país com 16 mil quilômetros de fronteiras”, declarou Lula.
Para tornar essa proposta viável, o presidente ressaltou a importância do governo em “vender o nosso produto” por meio da oferta de incentivos e facilidades que tornem a operação mais atraente. Ele argumentou que se uma montadora americana, por exemplo, decidir vender para a Bolívia usando suas fábricas no Brasil, isso não apenas facilita o aumento de mercado, mas também mantém o fluxo de caixa da empresa, gerando empregos e receitas locais.
Sátira tecnológica e a ameaça do tarifaço
<pCom uma pitada de humor e simbolismo, Lula aproveitou a oportunidade para criticar o nível tecnológico dos Estados Unidos. Ao mencionar a aquisição de 880 vans para criar ambulatórios odontológicos móveis, ele explicou que o Sistema Único de Saúde (SUS) agora utiliza impressoras 3D e scanners para fabricar próteses dentárias em áreas remotas, eliminando a necessidade dos moldes tradicionais. “Nem mesmo a dentadura do Trump se compara a essa inovação”, provocou.
A citação ao ex-presidente americano ocorre em um contexto comercial tenso, já que o governo dos EUA deve anunciar na quarta-feira (15) se aplicará ou não uma nova tarifa de 25% sobre as exportações brasileiras. Essa decisão está fundamentada em uma investigação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que examina alegações sobre práticas desleais ligadas ao uso do Pix, desmatamento ilegal e regras sobre propriedade intelectual.
A avaliação no Planalto é de que as chances de reverter o chamado “tarifaço” são mínimas, visto que os negociadores americanos tendem a desconsiderar os argumentos técnicos brasileiros. No entanto, Lula orientou que as negociações permaneçam abertas até o último momento. A definição das respostas e possíveis medidas retaliações ou adaptações ocorrerá apenas após o anúncio oficial.
A função do Estado na mediação de crises
Além das questões setoriais e geopolíticas discutidas na reunião, Lula aproveitou para defender um papel ativo do governo na resolução de problemas estruturais. Ele criticou administrações que se afastam das responsabilidades durante períodos críticos.
“Quando surge uma crise, geralmente os governos dizem: ‘Bom, isso não é minha responsabilidade; é um problema de vocês’”, afirmou Lula, citando situações como desastres naturais. “Uma enchente no Rio acontece e o governo responde: ‘Não é minha culpa; ninguém mandou chover demais’. E quando há seca: ‘Não é comigo; ninguém mandou fazer seca demais’.”
O presidente considerou inadmissível essa postura omissa do Estado. “Se o governo existe apenas para afirmar ‘não é comigo’, qual é sua utilidade?”, questionou.
Lula finalizou reiterando que o principal papel do Executivo deve ser liderar esforços em busca de soluções coletivas. Ele convocou todos os setores envolvidos a dialogar sobre as crises enfrentadas e trabalhar juntos para encontrar soluções eficazes, reafirmando assim a função do Estado como promotor e mediador do desenvolvimento nacional.

