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Lula retorna à Vila Euclides, o berço de sua trajetória pela luta dos trabalhadores

Recife CotidianoRecife Cotidianoagosto 13, 2026 37 Minutes read0

O Estádio Municipal 1º de Maio, localizado na histórica Vila Euclides em São Bernardo do Campo (SP), se destacou como um importante espaço político no final dos anos 1970 e começo dos anos 1980. Nesse cenário, milhares de metalúrgicos se uniram para desafiar a ditadura militar, enfrentando os patrões e reivindicando melhores salários, estabilidade no emprego, diminuição da carga horária e liberdade sindical.

No próximo dia 16 de agosto, às 9 horas, o campo que simbolizou a resistência contra o regime autoritário e serviu como o berço do novo sindicalismo brasileiro será novamente tomado por uma multidão. Neste local emblemático, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva dará início oficial à sua campanha pela reeleição.

Para compreender a importância desse retorno ao estádio, é essencial ouvir as vivências daqueles que fizeram parte da história ali construída. João Batista Lemos, ex-dirigente do PCdoB e autor de “Memórias Vermelhas”, não é apenas um observador; ele representa a memória viva de um país que aprendeu a lutar por seus direitos.

Batista, que era metalúrgico e participou ativamente da organização das greves naquela época, vê essa escolha como um retorno às raízes. “É uma sinalização de classe, do proletariado”, afirma ele, atualmente atuando na Secretaria Sindical do PCdoB-RJ. Para ele, Lula resgata “sua raiz de luta” naquele espaço onde se tornou “a maior liderança operária da história do Brasil”.

A proposta da campanha reflete essa ideia de reencontro: “Lula: onde tudo começou”. O evento será o primeiro grande ato popular após a oficialização da chapa Lula-Alckmin, que conta com o apoio de sete partidos.

O gramado que moldou a consciência coletiva

Batista recorda 1980 não como um simples ano no calendário, mas como uma intensa luta que durou 42 dias. “A greve teve início à zero hora do dia 1º de abril”, relembra o ex-operário das montadoras Volkswagen e Mercedes-Benz, que chegou a fazer parte do clandestino “comitê dos 15” durante a intervenção federal no sindicato. O movimento foi estrategicamente planejado por Lula para ter longevidade: criação de um fundo de greve, formação de comissões de mobilização e uma rede solidária envolvendo igrejas e movimentos sociais.

A ideia de ocupar o estádio surgiu das crescentes assembleias. Naquele período, a Vila Euclides transformou-se em uma assembleia pública monumental. “Quando Lula chegava lá atrás, os trabalhadores o carregavam nos ombros até o palanque. Ele escutava as massas e falava exatamente o que elas queriam ouvir”, conta Batista emocionado ao recordar momentos em que muitos choravam diante da força coletiva.

As assembleias reuniam cerca de 80 mil trabalhadores regularmente e atingiram 150 mil no Estádio 1º de Maio, enfrentando repressão policial e listas negras elaboradas pelas multinacionais em parceria com o Dops. Batista foi demitido na entrada da fábrica um dia antes da greve estourar por ter usado a tribuna para representar os colegas. “Foi uma verdadeira batalha de classes”, resume ele.

Esse solo histórico será pisado por Lula ao iniciar sua jornada para as eleições de 2026. Não se trata apenas de nostalgia; é uma reafirmação das raízes do maior líder popular do Brasil forjadas na exploração laboral e na coragem dos trabalhadores que desafiaram tanto a indústria automotiva quanto o regime militar.

A imagem simbólica de Lula sendo levantado pelos trabalhadores sintetiza uma transformação histórica: um dirigente sindical dirigindo-se a uma multidão que anteriormente era vista pelo regime militar como algo a ser controlado, não como atores políticos.

Reivindicações por salário justo e dignidade

As demandas dos trabalhadores eram concretas e urgentes. A inflação corroía seus salários enquanto jornadas que frequentemente ultrapassavam as 48 horas semanais geravam crescente descontentamento.

Batista destaca três principais reivindicações: recuperação salarial, estabilidade no emprego e redução da carga horária para 40 horas semanais.

Ele descreve a situação como “superexploração do trabalho”, onde jornadas longas eram combinadas com intensificação nas linhas produtivas.

No entanto, as lutas econômicas rapidamente adquiriram uma dimensão política significativa. O governo militar interveio no sindicato, proibiu assembleias e prendeu líderes como Lula, tornando a repressão parte integrante da rotina do movimento operário.

<p“São Bernardo se tornou uma praça de guerra”, lembra Batista.

Na Vila Euclides, entretanto, havia outro sentimento: “o entusiasmo das massas trabalhadoras” prevalecia.

Da repressão à redemocratização

No gramado daquele estádio não estava apenas em jogo um aumento salarial; as greves realizadas no ABC centraram a classe trabalhadora nas discussões políticas nacionais e foram essenciais para o processo de redemocratização do país.

O estádio também foi palco da construção de redes solidárias; caminhões chegavam com alimentos para formar cestas básicas aos grevistas. Igrejas abriram suas portas quando as assembleias foram proibidas e movimentos sociais se uniram à causa.

Nesse contexto emergiu Lula nacionalmente reconhecido e logo depois foi fundado o Partido dos Trabalhadores.

Segundo Batista, um aspecto marcante daquele período foi a união entre diferentes grupos laborais como força coesa: “Houve uma coesão dos trabalhadores”, diz ele. As greves conseguiram temporariamente superar rivalidades existentes entre os próprios operários.

É essa memória que ele espera transmitir às novas gerações que visitarem o estádio neste domingo.

A nova configuração do trabalho e resgate nacional

Cerca de quatro décadas separam as greves no ABC deste ato programado para 16 de agosto. O cenário mudou consideravelmente; Batista analisa essa nova configuração da classe trabalhadora com profundidade: “Na minha época, a Volkswagen contava com 42 mil empregados; hoje são apenas 9.600 efetivos mais cerca de 13 mil terceirizados. A automação rígida deu lugar à automação flexível com eletrônica e inteligência artificial”, observa ele.

Para Batista Lemos, o principal desafio para os jovens presentes nas arquibancadas será superar a fragmentação causada pelo neoliberalismo e reencontrar sua identidade como classe trabalhadora: “O fascismo usa essa fragmentação para buscar soluções pela direita”, alerta ele. Por isso mesmo o ato programado para o dia 16 tem forte simbolismo visual e político: representa o resgate das bandeiras brasileiras.

A classe trabalhadora não desapareceu; sua composição mudou e é crucial que ela retome seu reconhecimento coletivo. Nesse sentido, Vila Euclides pode atuar não apenas como um memorial histórico mas também como um elo entre diferentes gerações.

<p“Precisamos ver muitas bandeiras do Brasil nesse ato no dia 16! Precisamos provar que os trabalhadores são patriotas! Nós defendemos este país, não essa elite criminosa que sequestrou nosso verde-amarelo!”, convoca Batista. O estádio anteriormente nomeado em homenagem ao general Costa e Silva agora rebatizado pelo suor operário manterá seu papel central ao afirmar quem realmente pertence à nação.

Um novo capítulo sobre soberania nacional

A jornada iniciada na Vila Euclides em 2026 vai além de uma simples campanha eleitoral; representa o lançamento de um novo projeto nacional. Para João Batista Lemos, esse retorno ao ABC é uma clara “sinalização de classe” por parte de Lula – um reconhecimento das suas origens frente aos desafios atuais. “Este novo capítulo deve focar na reindustrialização do país em bases inovadoras alinhadas à revolução técnico-científica sob liderança dos trabalhadores”, prevê ele.

No passado (1980), havia dúvidas sobre enfrentar patrões e regimes autoritários; agora (2026), questiona-se qual projeto pode responder à reindustrialização diante das novas tecnologias e desigualdades sociais enquanto busca preservar nossa soberania?

Quando Lula subir ao palanque no Estádio 1º de Maio acompanhado por sete partidos políticos e por uma multidão mesclada entre aqueles que enfrentaram os horrores da ditadura militar com os jovens contemporâneos imersos na era digital da inteligência artificial – ecoarão as vozes daquele passado distante (1980). A história não se encerra onde começou; ela encontra novos caminhos para se reinventar. E mais uma vez no gramado da Vila Euclides, os trabalhadores brasileiros estarão prontos para moldar seu futuro.

No antigo campo futebolístico ainda haverá espaço para assembleias decisivas sobre seu destino coletivo.

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