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Nelson Rodrigues: A Influência Indelével do Mestre do Teatro Brasileiro

Recife CotidianoRecife Cotidianosetembro 3, 2026 23 Minutes read0

Na tarde de ontem, reunimos Paulo César Fradique, Carlos Gilberto, Tarcísio Patrício, Zé Soares e eu em um bar localizado no Recife. De forma inesperada, Nelson Rodrigues se juntou a nós à mesa. Sem nos darmos conta de que era seu aniversário, que não sabíamos, começamos a celebrar sua memória com grande entusiasmo.

As risadas foram muitas, especialmente ao recordarmos uma famosa frase de Nelson em um debate na televisão. Na ocasião, tentavam provar que o zagueiro do Fluminense havia cometido um pênalti. O apresentador mostrou um vídeo em que o jogador do Fluminense, time do qual Nelson era torcedor, derrubava um atacante do Flamengo na área. A resposta rápida e espirituosa de Nelson foi: “O teipe é burro!”.

A presença de Nelson Rodrigues neste domingo (23), data de seu aniversário, nos leva a rememorar a homenagem que fiz a ele no Dicionário Amoroso do Recife.

Nelson Rodrigues: o gênio eterno

Nascido em Recife numa sexta-feira, 23 de agosto de 1912, Nelson Rodrigues viveu diversas vidas e experiências. Ele é frequentemente considerado carioca devido à sua formação e aos temas que abordou em sua obra, mas é importante destacar suas raízes pernambucanas. Chegou ao Rio de Janeiro aos quatro anos e isso não diminui sua identidade como recifense.

A referência mais notável à sua carreira pode ser encontrada no teatro. Seu trabalho teatral exigia uma análise profunda que transcendia as aparências e o óbvio. A essência do seu teatro remete à complexidade das relações familiares em Pernambuco e revela os conflitos íntimos que nasciam da repressão sexual daquela sociedade. Os dramas familiares retratados por ele são heranças das dinâmicas sociais dos senhores de engenho pernambucanos. A opressão vivida pela família pernambucana acompanhou Nelson até sua vida no Rio.

Como ele mesmo confessou em uma entrevista: “Minha primeira experiência erótica é anterior à minha memória… Um dia apareceu uma vizinha dizendo que qualquer filho da minha mãe poderia entrar na casa dela, menos eu”. Essa lembrança ilustra o rigor do ambiente familiar em que cresceu.

Com isso em mente, chegamos ao nosso ponto de chegada. Assim como Ivan Lima costumava iniciar suas transmissões esportivas: “Abrem-se as cortinas do espetáculo”. E assim vemos o estádio através da imaginação com essas palavras. Agora também abrimos as cortinas para reconhecer que Nelson Rodrigues foi indiscutivelmente o maior gênio da literatura esportiva brasileira. Ele conseguiu realizar o sonho de muitos escritores: ser lido e discutido por todos sem perder a dignidade artística ou recorrer à demagogia. Não conheço ninguém na literatura mundial que tenha se destacado tanto quanto ele na crônica esportiva.

Se duvidam disso, observem como ele descreveu Pelé antes da Copa do Mundo de 1958: “Depois do jogo América x Santos seria um crime não fazer de Pelé meu personagem da semana… Um verdadeiro garoto… Ele anda em campo como uma autoridade irresistível…”.

Isso foi registrado em uma crônica publicada em março de 1958. Se a visão precoce sobre Pelé não impressiona, atente-se ao que ele escreveu sobre Garrincha: “Garrincha é puro instinto… Ele cultiva a bola como se fosse uma orquídea rara”. Essa comparação transcende o futebol e adentra a esfera da arte.

No texto O craque sem idade, ele observa: “A bola tem um instinto clarividente e infalível… No fim de certo tempo, tínhamos a ilusão de que só Zizinho jogava”. Em Vitória Fla-Flu, descreve um momento emocionante: “O arqueiro Carlos Alberto caiu de joelhos diante do gol…”. Já em O desfigurado Fluminense, fala sobre como trinta segundos foram suficientes para definir a partida contra o Fluminense.

No relato intitulado Derrota brasileira, menciona estar assistindo outra luta enquanto notava os gols do Honvéd sendo anunciados. É interessante notar como ele escrevia sobre eventos dos quais não estava presente fisicamente; essa habilidade é rara entre jornalistas esportivos e mostra seu talento singular.

A maestria de Nelson Rodrigues está na capacidade de extrair humor e profundidade das situações mais cotidianas através das palavras; ele era capaz de surpreender mesmo utilizando sempre os mesmos recursos estilísticos.

“Olhem Pelé! É um menino… Mas é um gênio indubitável”, escreveu ele certa vez. Mesmo sem seu teatro, a imortalidade dele já estava garantida através das crônicas maravilhosas que deixou.

No Brasil, ninguém capturou a essência do futebol com tanta originalidade quanto o pernambucano Nelson Rodrigues.

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