A reeleição do presidente Lula (PT) para um novo mandato gerou uma reação intensa no mercado financeiro, evidenciando que os investidores estavam preparados para um governo de Flávio Bolsonaro (PL) que não se concretizou. Na segunda-feira (26), a B3, bolsa de valores brasileira, registrou uma queda de 17%, acionando o circuit breaker, um mecanismo utilizado para interromper temporariamente as negociações em casos de quedas abruptas.
José Luís Oreiro, professor de economia no Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares da Universidade de Brasília (UnB), aponta que a resposta do mercado foi exagerada, principalmente porque na sexta-feira anterior ao segundo turno (23), os preços dos ativos financeiros, incluindo ações e juros futuros, refletiam uma probabilidade de 90% a favor do candidato bolsonarista.
Ele observa que essa avaliação era baseada em “muita torcida”, dado que as pesquisas eleitorais mostravam um cenário de empate técnico, com leve vantagem para o senador, o que não justificava tanto otimismo.
“Os mercados se decepcionaram ao apostar na ideia da ergodicidade, que pressupõe que o futuro é uma mera extensão estatística do passado. Não conseguiram prever eventos inesperados, como o cisne negro, assim como falharam em antecipar a crise do subprime entre 2007 e 2008. Essa incerteza keynesiana [a noção de que não é possível calcular todas as probabilidades futuras] se concretizou”, analisa.
Oreiro ainda ressalta que os participantes do mercado não consideraram cenários alternativos e enfatiza que erros dessa natureza são comuns tanto nos mercados financeiros brasileiros quanto globais.
“Esses investidores cometem erros repetidamente. Eles tiveram que lidar com as consequências das suas próprias decisões e isso gerou um clima de desespero. Aquele velho ditado de ‘quem sai primeiro perde menos’ se aplicou aqui. Quando a música parou, quem ficou sem cadeira? O movimento foi impulsionado pelo pânico. Todos estavam apostando em um cenário favorável a Flávio Bolsonaro, e quando isso não ocorreu, houve uma fuga em massa para liquidez”, destaca o professor (que menciona um trecho do filme Margin Call – O Dia Antes do Fim como referência para entender a situação atual; veja aqui).
Essa “fuga para a liquidez”, uma tentativa de minimizar perdas, é apenas uma das facetas desse movimento da bolsa. Alguns investidores especularam contra a bolsa (operando vendido) na expectativa de lucrar com essa situação.
Além disso, alguns conseguiram ganhos por meio da marcação a mercado de títulos públicos de renda fixa. Assim como aqueles que venderam ações supervalorizadas devido à expectativa de vitória bolsonarista, também lucraram os investidores em renda fixa que aproveitaram o movimento especulativo nos juros futuros e venderam posições valorizadas antes das eleições.
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O professor acredita que apesar da instabilidade imediata prevista nos próximos dias, esses movimentos tendem a se corrigir naturalmente. Investidores racionais voltarão a adquirir ações mais baratas, cientes de sua potencial valorização futura, considerando que a economia brasileira permanece robusta apesar das incertezas eleitorais recentes. Adicionalmente, investidores estrangeiros estão aproveitando para comprar ações como Petrobras e Vale por preços mais acessíveis devido à valorização do dólar.
Diante disso, Oreiro adverte que não é correto atribuir o colapso do mercado nesta semana às expectativas sobre o próximo governo Lula, principalmente porque este mesmo mercado frequentemente errou em suas previsões durante o atual mandato presidencial.
“Não podemos afirmar: ‘o mercado precifica uma catástrofe no governo Lula 4’. Eles já fizeram previsões semelhantes sobre o governo Lula 3 e estas não se concretizaram. Em essência, o mercado está sendo penalizado por suas próprias falhas na análise”, considera.
Ainda assim, o economista sugere que uma rápida indicação por parte de Lula sobre quem assumirá o Ministério da Fazenda pode trazer mais tranquilidade ao mercado financeiro.
“Há rumores sobre Rafael Fonteles, governador do Piauí; até onde sei ele é bem visto na Faria Lima. Anunciar um nome pode ser crucial neste momento sem comprometer políticas específicas. Apenas tornar público um nome percebido como alguém capaz de evitar agravar a situação pode ter um efeito positivo”, diz.
Lula 4
Segundo Oreiro, para estimular a produção e reduzir o endividamento das famílias brasileiras, é imperativo resolver definitivamente o problema dos juros elevados durante este quarto mandato de Lula.
Ele propõe a criação de um novo Plano Real voltado para as taxas de juros através de uma reforma monetária completa que desindexe toda a economia brasileira, estabelecendo o Real como única unidade contábil nacional. Tal proposta contrasta com as diretrizes atuais do governo relacionadas ao salário mínimo e aos benefícios sociais.
A ideia apresentada pelo professor em publicações1 e papers visa promover uma inflação controlada para possibilitar juros mais baixos; isso incentivaria a produção enquanto combate práticas rentistas e tornaria o câmbio mais competitivo.
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Adicionalmente, Oreiro reforça a necessidade urgente de revisar o regime atual das metas inflacionárias. Ele argumenta pela adoção de metas mais realistas considerando dados históricos nacionais.
“Desde meados de 1999 até hoje, a inflação média no Brasil gira em torno de 5,5% a 6% anuais enquanto a meta estabelecida é apenas 3%. Essa discrepância não é viável e tem gerado pressão desnecessária sobre as políticas monetárias. Isso faz com que o Banco Central precise adotar taxas muito superiores às necessárias se tivéssemos metas mais adequadas”, afirma.
Para aqueles críticos da proposta que alegam possíveis danos à credibilidade da política monetária caso haja alteração nas metas inflacionárias pelo Banco Central ele responde: “A credibilidade se constrói não por meio da imposição de metas inalcançáveis mas pelo cumprimento honesto das promessas feitas. Não adianta prometer uma inflação abrangente abaixo dos 3% se você não consegue consistentemente entregar índices inferiores aos 4% num período acumulado”, conclui enfatizando também a importância da reestruturação do Nova Indústria Brasil (NIB) visando alinhamento estratégico às condições locais e sustentabilidade sustentável entre outros fatores.
- OREIRO, José Luís; SANTOS, Julio Fernando Costa. The unfinished stabilization of the Real Plan: an analysis of the indexation of the Brazilian economy. In: FERRARI-FILHO, Fernando; DE PAULA, Luiz Fernando (ed.). Central Banks and Monetary Regimes in Emerging Countries: Theoretical and Empirical Analysis of Latin America. Cheltenham: Edward Elgar Publishing, 2023. p. 61-81. ︎
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