Nas últimas semanas, as cidades francesas têm sido palco de intensos protestos contra as consequências da crise neoliberal que afeta a Europa. No sábado, dia 17, um grande número de manifestantes se reuniu em mais de cem localidades, com o Ministério do Interior contabilizando 550 mil participantes, enquanto a Confederação Geral do Trabalho (CGT) estimou a presença de 800 mil pessoas.
Os protestos atraíram uma diversidade de participantes, incluindo estudantes, trabalhadores, aposentados e líderes sindicais, além de membros do movimento dos coletes amarelos.
“O custo de vida está insuportável e os preços dos combustíveis são exorbitantes”, afirmou Lola, uma estudante de 19 anos, durante a manifestação em Paris, conforme reportado pela Reuters.
A mobilização começou em setembro nas escolas de regiões populares, onde estudantes se manifestaram contra a escassez de professores, salas superlotadas e condições precárias das instalações. Ao longo das semanas seguintes, eles bloquearam instituições educacionais e se uniram às ruas para exigir melhorias.
No último sábado (17), os atos promovidos por sindicatos e trabalhadores se somaram à luta estudantil em resposta ao aumento dos preços e à diminuição do poder aquisitivo.
O projeto orçamentário do governo francês para 2027 apresenta um cenário alarmante para a classe trabalhadora local, ao mesmo tempo em que favorece grandes empresas e elites econômicas.
Esse orçamento inclui cortes de € 54 bilhões, congelamento nos salários do setor público e na maioria das aposentadorias, além de restrições aos gastos de administrações locais e cortes nos serviços de saúde. Em contrapartida, uma diminuição de 30% na sobretaxa aplicada às grandes corporações está prevista.
A elevação dos preços também é impulsionada por distúrbios nos mercados energéticos devido aos conflitos no Irã e na Ucrânia. A Comissão Europeia estima que os efeitos sobre o comércio e os mercados energéticos tenham gerado um custo de € 100 bilhões para a Europa. Os preços do gás aumentaram aproximadamente 140%, enquanto os do diesel dobraram.
Diante desse cenário desafiador para a renda da população, o governo francês opta por medidas fiscais rigorosas que transferem parte da carga financeira aos trabalhadores e usuários dos serviços públicos.
A combinação da austeridade com a perda do poder aquisitivo e a degradação dos serviços públicos tem alimentado um clima de insatisfação que a extrema direita tenta explorar para ganhar apoio entre os trabalhadores.
No entanto, a resposta popular tende a se intensificar nas próximas semanas. Após uma reunião com o primeiro-ministro Sébastien Lecornu na quarta-feira (21), Sophie Binet, secretária-geral da CGT, destacou que não houve propostas concretas por parte do governo para atender às demandas apresentadas.
“A raiva é imensa e justificada; a resposta do governo não pode ser reprimir as manifestações. Precisa ser uma solução política”, acrescentou.
A CGT, junto com outras organizações sindicais, convocou uma mobilização nacional para o dia 5 de novembro e propôs assembleias nos locais de trabalho visando organizar uma greve geral.
Antes dessa data, estudantes e coletes amarelos planejam novos atos para o próximo sábado (24). O governo já implementou toque de recolher em algumas áreas de Paris e Lyon e impôs restrições para menores em Marselha. Para essa nova manifestação, foi anunciada uma operação policial ampliada, com o envio de militares da força Sentinelle para proteger “locais estratégicos”.

