No ano de 2025, o governo de São Paulo, sob a liderança de Tarcísio de Freitas (Republicanos), concedeu permissão para que o Banco Digimais realizasse empréstimos consignados com desconto diretamente na folha de pagamento dos policiais militares. Essa decisão acabou funcionando como um verdadeiro salvamento para a instituição financeira em dificuldades.
Ao permitir o acesso a um mercado que abrange mais de 80 mil servidores com salários regulares, o governo estadual ofereceu ao banco uma oportunidade significativa de recuperação financeira em um momento crítico.
A Polícia Federal iniciou nesta terça-feira (23) a Operação Miragem, visando o Banco Digimais, que é controlado pelo bispo Edir Macedo. A operação resultou no cumprimento de nove mandados de busca e apreensão, além do bloqueio de até R$ 670 milhões em bens e ativos. A investigação da PF investiga um esquema que teria envolvido manipulação contábil para encobrir a real insolvência da instituição.
O credenciamento e a situação financeira do banco
Em agosto de 2025, foi assinado o Contrato nº CIAF 011/2025 entre o governo paulista e o Digimais, permitindo operações de consignado na folha da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP), com validade até fevereiro de 2030. Um mês antes, a Diretoria de Folha de Pagamento (DFP) havia publicado o Comunicado DFP nº 006/2025, autorizando o uso do código de consignação, conforme divulgado no Diário Oficial do Estado.
Na época em que foi feito o credenciamento, a situação financeira do banco já era crítica. Em setembro de 2025, as perdas acumuladas eram estimadas em cerca de R$ 250 milhões, e esse número quase dobrou, alcançando cerca de R$ 500 milhões em fevereiro do ano seguinte. Por sua natureza, os empréstimos consignados são considerados operações financeiras com baixo risco, proporcionando uma fonte estável e segura para captação e liquidez.
Embora o governo considere o credenciamento uma ação técnica administrativa aberta a qualquer instituição que atenda aos requisitos necessários, a escolha do momento para conceder essa autorização gerou críticas intensas por parte dos analistas do mercado financeiro e despertou suspeitas sobre possíveis irregularidades.
Após as primeiras reportagens sobre essa autorização publicadas em maio de 2026, o deputado estadual Maurici (PT) protocolou uma representação no Ministério Público do Estado questionando as aprovações feitas pelo governo Tarcísio e pela Prefeitura da capital. Contudo, ainda naquele mês a Promotoria do Patrimônio Público arquivou a solicitação por considerá-la apenas uma suspeita infundada. O assunto ganhou nova relevância com a ação da Polícia Federal na Operação Miragem em 23 de junho.
Declarações da Polícia Federal
A Polícia Federal apresentou detalhes sobre as práticas investigadas no esquema. Segundo a corporação, houve adoção por parte do Digimais de “práticas análogas” às utilizadas pelo Banco Master. As investigações indicam que os responsáveis teriam distorcido demonstrativos contábeis e registros regulatórios para apresentar uma condição financeira mais favorável à realidade e disfarçar a verdadeira insolvência da empresa.
A PF também mencionou que o banco poderia ter utilizado o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como um mecanismo para encobrir suas fragilidades financeiras, repetindo táticas fraudulentas empregadas pelo Banco Master. A apuração começou após relatórios do Banco Central apontarem irregularidades nas contas da instituição.
Relações com o Banco Master e riscos ao FGC
A comparação com o Banco Master é inevitável; este também recebeu autorizações para operações consignadas em larga escala durante períodos financeiros complicados tanto no Rio de Janeiro (sob gestão Cláudio Castro) quanto no Distrito Federal (na gestão Ibaneis Rocha). Em uma análise publicada hoje pela Folha de S.Paulo foram ressaltadas semelhanças entre ambos os casos: ambos utilizavam carteiras problemáticas recicladas em fundos próprios para inflar seus ativos e aparentar solvência.
Especialistas alertam que uma possível liquidação do Digimais poderá ter consequências significativas para o FGC. O custo potencial para garantir depósitos pode aumentar consideravelmente em 2026, podendo alcançar dezenas de bilhões de reais em cenários pessimistas.
Conexões com a Igreja Universal
Embora existam relações entre o partido Republicanos e a Igreja Universal ligado ao Tarcísio, até agora não surgiram evidências concretas sobre repasses financeiros ou corrupção envolvendo agentes governamentais paulistas. Essa linha investigativa pode ser explorada mais profundamente enquanto a Operação Miragem se concentra nas fraudes contábeis dentro da instituição.
Os contratos já estabelecidos entre os servidores e o Banco Digimais permanecem válidos. Não há decisões judiciais que suspendam os descontos realizados. No entanto, novas operações poderão ser afetadas pelo andamento das investigações em curso.

