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Brasil registra progresso em 71% dos indicadores; porém, 1% mais abastado recebe 31,5 vezes a renda média

Recife CotidianoRecife Cotidianoagosto 13, 2026 36 Minutes read0

Em 2025, o Brasil registrou avanços significativos na maioria dos indicadores sociais, impulsionados pela recuperação do mercado de trabalho, aumento da renda e diminuição da pobreza. No entanto, o país ainda enfrenta desafios para garantir uma distribuição mais equitativa da riqueza.

Essas informações foram apresentadas no Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades 2026, que foi divulgado nesta quarta-feira (12).

Dos indicadores que foram atualizados, 71% mostraram melhorias em comparação ao período anterior, enquanto 16% apresentaram piora e 13% mantiveram-se praticamente inalterados.

Um dos principais pontos de preocupação é a desigualdade na distribuição dos ganhos econômicos. Em 2025, o rendimento médio do 1% mais abastado foi 31,5 vezes superior ao dos 50% mais pobres, um aumento em relação ao índice de 30,2 vezes registrado em 2024.

O estudo aponta que, embora o crescimento econômico e a melhoria no mercado de trabalho tenham elevado a renda média da população, os benefícios foram predominantemente absorvidos pelos grupos de maior renda.

Realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) como parte do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades e com a colaboração do Ministério das Mulheres, este levantamento analisa diversos indicadores relacionados à renda, emprego, segurança alimentar, educação, saúde, meio ambiente, habitação, segurança pública e representação política.

Desemprego diminui e renda aumenta

A recuperação do mercado de trabalho é um dos destaques entre as conquistas observadas desde 2022. Entre 2022 e 2025, a taxa de desemprego no Brasil caiu de 9,6% para 5,6%. Para as mulheres negras—um grupo historicamente mais afetado pelo desemprego—a redução foi ainda mais expressiva: de 14% para 8,5%.

A renda média real total também apresentou crescimento. Em 2025, atingiu R$3.376, representando um aumento de 5,3% em relação ao ano anterior.

O relatório conecta os progressos recentes à recuperação econômica, à valorização do salário mínimo, ao aumento do emprego formal e ao fortalecimento das políticas públicas.

Os efeitos positivos também são visíveis nos dados sobre pobreza. O estudo revela que a valorização do salário mínimo e a ampliação das políticas de proteção social contribuíram para diminuir a parte da população vivendo com renda per capita inferior a um quarto ou até meio salário mínimo.

Outros indicadores seguiram tendência semelhante. A taxa de matrícula em creches para crianças entre zero e três anos subiu de 30,7% em 2022 para 36,6% em 2025. Entre as crianças negras essa proporção aumentou de 28,5% para 34,5%. Além disso, a taxa líquida de escolarização no ensino médio entre jovens negros masculinos subiu de 64,3% para 72%.

O relatório também destaca progressos na segurança alimentar e na redução da desnutrição infantil e entre idosos. Outros avanços incluem a diminuição do analfabetismo e melhorias nas taxas de escolarização no ensino médio e superior além da queda nos homicídios entre jovens com idades entre 15 e 29 anos.

Crescimento não beneficia todos igualmente

Apesar das melhorias gerais observadas nos dados nacionais, o relatório indica que esse progresso não se traduziu em uma redução equivalente das desigualdades por classe social, gênero e raça.

A concentração de renda ilustra bem essa realidade. Após uma queda em 2024, a discrepância entre os rendimentos do grupo mais rico (1%) e os da metade mais pobre voltou a aumentar. O rendimento médio do topo da pirâmide era em média 30,2 vezes maior que o dos mais pobres em 2024; já em 2025 essa diferença saltou para 31,5 vezes.

No Centro-Oeste brasileiro houve um aumento significativo nessa diferença: passou de uma razão de rendimento entre esses dois grupos de 25 para quase 29 vezes. No Sudeste essa relação subiu de 27,4 para cerca de 30 vezes. Por outro lado, as regiões Nordeste e Sul mostraram uma diminuição nessa desigualdade.

A pesquisa enfatiza que apesar das condições melhoradas no mercado laboral terem contribuído para elevar o padrão de vida geral da população brasileira, não houve mudanças substanciais na forma como a riqueza gerada é distribuída no país.

Dessa forma, a desigualdade na renda continua sendo um dos principais fatores que perpetuam outras formas de desigualdade social.

Mulheres negras continuam na base da pirâmide

A análise das rendas por gênero e raça revela disparidades significativas. Embora haja crescimento na renda média para todos os grupos em 2025, as mulheres negras experimentaram o menor aumento—apenas 3,7%. Os homens negros registraram um incremento de receita de 4,1%; mulheres não negras aumentaram sua renda em até 4,8%; enquanto os homens não negros viram um aumento considerável de até 6,9%.

Dessa forma as mulheres negras continuam sendo as que menos recebem: com uma média mensal de R$2.184 comparado aos R$5.172 recebidos pelos homens não negros.

A diferença ficou ainda mais acentuada; em comparação com os rendimentos dos homens não negros—que eram equivalentes a R$5.172—em termos percentuais as mulheres negras passaram a receber apenas cerca de42% desse valor comparado aos seus homólogos masculinos não negros.

No tocante à pobreza também existem diferenças marcantes: entre os negros (11%) das mulheres viviam com renda per capita abaixo do quarto salário mínimo em comparação com apenas (9%) dos homens dessa mesma etnia; já entre pessoas não negras esses índices eram bem menores—de apenas (5%) para mulheres contra (4.5%) para homens.

A segurança alimentar melhora mas desigualdade racial persiste

A situação da segurança alimentar apresentou melhoras notáveis. A parcela da população enfrentando insegurança alimentar moderada ou grave caiu entre os anos de 2023 e 2024—de9,.5 %para7,.7 %.

No entanto essa média nacional esconde realidades muito diferentes; enquanto10 %das mulheres negras estavam sob insegurança alimentar moderada ou grave esse percentual era levemente menor —9,.7 %para homens negros—em contraste com apenas4,.6 %entre mulheres não negras ou4,.7 %entre homens dessa mesma categoria .

Evidencia-se também grandes disparidades regionais: as regiões Norte e Nordeste continuam apresentando altos índices relativos à pobreza , insegurança alimentar , analfabetismo , mortalidade infantil , gravidez precoce , homicídios juvenis além do baixo acesso à creches .

Sistema tributário contribui para manutenção da concentração

Para o Observatório Brasileiro das Desigualdades , a continuidade das desigualdades sociais não pode ser atribuída apenas às condições do mercado laboral . O relatório destaca também mecanismos institucionais que favorecem a concentração da riqueza , especialmente o sistema tributário vigente .

Dados referentes às declarações do Imposto de Renda indicam que a carga tributária eleva-se proporcionalmente somente até certos níveis ; acima disso ela tende a cair , fazendo com que indivíduos extremamente ricos paguem proporcionalmente menos impostos que muitos contribuintes com rendas intermediárias .

Esse fenômeno regressivo ajuda a explicar por que as desigualdades no Brasil permanecem mesmo durante períodos favoráveis ao emprego e aos salários .

Nesse contexto , o relatório considera positiva a reforma realizada no Imposto de Renda implementada em2026 , ampliando isenções até rendimentos mensais superiores àR$5 mil assim como instituindo alíquotas mínimas efetivas sobre rendas elevadas .

Ainda que tal medida não seja suficiente sozinho para combater efetivamente a concentração patrimonial , representa um passo importante rumo ao fortalecimento da capacidade redistributiva estatal .

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Concentração de rendadesigualdade socialDieeseEconomiaempregoGoverno Lulamulheres negrasObservatório Brasileiro das DesigualdadesPobreza

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